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Miopia

Através do Womenage a trois cheguei ao Relatório Final do Grupo de Trabalho sobre Educação Sexual. Correndo o risco de ser injusto – pois não se trata aqui de analisar o dito relatório – a sensação com que se fica é de que o discurso implícito é algo como isto: o mundo tal como existe, normal e regular, é um mundo de rapazes e raparigas heterossexuais, pintalgado por alguns que não o são e em relação aos quais deve ser promovida uma coisa chamada ora “diversidade” ora “tolerância”.

Apesar de bem intencionado, este discurso não serve. Não é substancialmente diferente – a não ser na intenção caritativa da “tolerância” e na fuga eufemística da “diversidade” – do discurso que tem prevalecido nas últimas décadas e que poucos resultados teve na promoção do bem-estar e autonomia das pessoas. Porque não dizer claramente: “O mundo tal como existe é feito de muitas variações da identidade, da orientação e do comportamento sexuais. Todas são legítimas. Ilegítima é a discriminação, activa ou pelo silenciamento. E a regra de ouro das relações sexuais e afectivas é o mútuo consentimento informado entre pessoas em idade legal”?

Por causa do “consenso”? Por causa da pressão do lobby católico, versão fundamentalista? Mas então o Estado não opta? E os governos não optam? Há eleições para quê? Ou a razão será outra – uma interiorizada e inconsciente miopia típica de quem, mesmo sendo “técnico”, mesmo sendo “laico”, mesmo sendo de “esquerda”, se situa, afinal de contas, na heteronormatividade?

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