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Praxe

As faculdades que permitem as praxes, mesmo que apenas nos pátios ou espaços circundantes (como, infelizmente, acontece com a minha) estão a subscrever e a promover os piores valores. É assim como se nos seus cursos de comunicação social ensinassem o jornalismo com base no 24 Horas, ou nos de antropologia promovessem o racismo “científico”, ou nos de física dissessem que Galileu era um herege. Pela minha parte lá vou dando aulas, gritando sobre o barulho que entra pelas janelas. Depois, nos corredores, e sobretudo nos pátios, é uma viagem pelo comboio-fantasma, uma aula viva de etologia animal, um parque temático medieval: orelhas de burro, bonecas insufláveis, machismo, homofobia, humilhações, hierarquias, celebração do privilégio. Ao menos que assumissem o lado animal da coisa: os machos (e as fêmeas adeptas do machismo) que montassem os júniores, seguindo-se um chichizinho para marcar o território. Iam ver que aliviava.

This Post Has 7 Comments

  1. Anonymous diz:

    Domingo, Outubro 14, 2007
    É tempo de praxe

    Todos os anos por esta época as universidades portuguesas enchem-se de estudantes que fazem coisas ridículas sob orientação dos seus colegas mais velhos. Esta semana cruzei-me em Aveiro com um longa bicha de caloiros que vinham da ria acartando nas mãos, debaixo do sol, sacos plásticos cheios de lodo. Presumo que a intenção fosse levar aquela porcaria para a Universidade. Em Coimbra, ao pé da escadaria monumental, passei por um estudante com o traje académico que era escoltado ao caminhar por quatro colegas recém-chegados à capital da cultura universitária que o rodeavam de braços estendidos no ar agarrando a capa dele sobre a sua insigne cabeça para que esta não apanhasse sol de mais. Suponho que teria medo que o pequeno cérebro derretesse.
    Chamam a isto a praxe, e a justificação dada para que os colegas mais novos se tenham de lhe submeter é a necessidade de “integração”. Só há integração para quem não fizer ondas e aceitar com humildade os tratos de polé. Os caloiros são mandados fazer figura de urso para se poderem integrar, com a promessa de que um dia também poderão ser superiores prepotentes e terão enfim o direito de mandar uma nova geração de inferiores (caloiros/lamas/lodos) fazer por sua vez figuras tristes. É a apologia da humilhação como estratégia pedagógica.
    Dizem os praxistas que é bom como aprendizagem para a vida, como preparação para o mundo. Aprende-se assim a respeitar a hierarquia, preparam-se os jovens para um modelo de relações profissionais baseado não no respeito mútuo, mas nas pequeninas e mesquinhas maneiras quotidianas de lembrar quem é o superior. Um modelo onde pouco conta o mérito, onde as ideias novas ou diferentes são malvistas, no qual importante é saber lamber as botas de algum cacique. Aprende-se a obedecer sem questionar. Para que se perpetue uma cultura que promove o medo de ser o destravado da língua que comete a heresia de dizer que o rei vai nu. E que é saneado pela ousadia. A praxe é um reflexo do triste país que temos, portugalzinho no seu pior.

    Publicada por João Paulo Esperança em 11:52 PM 0
    in Hanoin Oin-Oin

  2. Carlos diz:

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    Tinha-me esquecido de dizer que frequentei a licenciatura no horário pós-laboral e que os mentores das praxes em Antropologia eram também os alunos nocturnos, todos com mais de 40 anos (mais velhos do que eu). Era hilariante ver sexagenário/as de capa e batina, aos pulinhos com as fitinhas coloridas. Carecas, desdentados, de barbas e cabelos brancos, eles e elas realizavam uma performance com um certo “quê” de Ionesco.
    A malta mais nova, das turmas diurnas, pouco queria saber da praxe.
    Entre os temporões, o delírio praxístico era de tal forma intenso que nem tinham disponibilidade para irem às aulas. Não me esqueço de um papel colado na porta da sala de aulas de um dos anos mais adiantados que rezava o seguinte: “Os alunos da turma XX do curso de Antropologia informam os professores que não estarão presentes nas aulas até ao dia XX”. Assim mesmo! E depois vinham queixar-se do preço das propinas, do “fraco valor dos produtos fornecidos” e da “qualidade do serviço prestado”, equiparando a Academia a um qualquer bar do Bairro Alto.

    NB – Apesar de condenar alguns dos meus ex-colegas, esclareço que – nas instâncias apropriadas – fui bastante mais crítico do que todos eles em relação às políticas da instituição e a diversas questões relacionadas com a licenciatura. Também fui o primeiro a defender, nos locais próprios e sem medo de represálias, todos os colegas que considerei estarem certos nos seus protestos.
    O que nao posso é deixar de considerar que muitos discentes, por nao compreenderem nem assumirem o papel que deveriam ter na Academia, se tornaram co-responsáveis pela situação menos desejável em que esta agora se encontra.
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  3. FuckItAll diz:

    Felizmente para mim, Carlos, no meu tempo de caloira do ISCTE as praxes passavam-se só de manhã, entre os alunos de gestão, a nós de antropologia passava-nos ao lado (nesses idos de 87 só havia 3 cursos, outros tempos…).

    Eu até daria de borla que, para algumas pessoas, aquilo é uma coisa optima, etc, não fosse o lado semi-compulsivo que se continua a permitir que isto tenha.

    Já agora, não resisto a linkar uma discussão velha de um ano sobre o tema:
    http://womenageatrois.blogspot.com/2006/10/nem-tudo-so-ms-notcias.html

  4. cvt diz:

    Eu tb pertenço ao leque daqueles que abominam as praxes. Tive a perícia de escapar a elas qdo andei na faculdade através de uma providencial janela. Nos anos seguintes evitei-as. Mas eu fico espantado é com a dificuldade com que pessoas treinadas em ciências sociais tenham tanta dificuldade em racionalizar esta questão. Que as praxes resultem da impossibilidade em contestar a autoridade académica talvez fosse um bom ponto de partida em vez das indignações púdicas que geralmente se manifestam quando se fala das praxes…
    Mas o que me preocupa actualmente nas praxes é que era suposto a violência ser meramente simbólica e não é. Reflexo da universidade se ter democratizado mais do que o suficiente e necessário ou o contrário?

  5. Luísa diz:

    Miguel, este post diz tudo.
    eu interpreto a praxe em torno de 2 questões principais: 1) personalidades autoritárias e sádicas q ressurgem em cada geração, apesar da esperança fugidia de q com as novas gerações viriam novas ideias e formas de ser (surgem algumas, felizmente, e surgem em todas as gerações); 2) a javardice do ritual do privilégio, que se liga com a anterior, e q tem a ver com a desgraçada realidade da universidade se ter democratizado mas não o suficiente nem o necessário.
    tb achei interessante o comentário do carlos: tb sou das ciências sociais e conheço gente, desde licenciados a doutorados, q diz frases sem qualquer interpretação da realidade social e age de acordo com as mesmas. como se tivessem a cabeça compartimentada: o conhecimento entra no cérebro em formato fechado para um lugar onde não há conexão com os restantes neurónios e emoções. faz pensar, sobre a capacidade de mudança q poderá ter a aquisição e transmissão de conhecimento…

  6. Carlos diz:

    A pior memória que tenho da Universidade é a de, quando caloiro de Antropologia, no ISCTE, ver entrar na minha sala de aula (repito: na sala de aula!)alguns alunos do 3º ano do mesmo curso (de Antropologia), mascarados com umas vestes de inspiração eclesiástica e parecidas com a farda do Batman, propondo a realização de diversos rituais “praxísticos” aos presentes. Foi o mais violento e inusitado balde de água fria que levei e que quase me fez abandonar a academia naquele mesmo dia. Como era possível que alunos quase finalistas de uma formação em Antropologia fossem mentores de um ritual estúpido, rídiculo e que desafia a própria essência daquele ramo do saber? Desacreditei completamente o curso, mas achei que deveria insistir um pouco mais e combinei comigo mesmo que ficaria até ao final do 1º semestre e só depois decidiria se batia com a porta. Até porque tinha ali um novo desafio: tentar compreender como era possível que aqueles quase antropólogos, ao fim de três anos de curso, pareciam não terem ainda percebido o que andavam ali a fazer. Não desisti e acabei por conseguir algumas interpretações sobre o que está subjacente àquelas atitudes, embora isso seja um assunto demasiado complexo e extenso para explanar aqui.
    Ainda assim, ainda hoje estranho que alguns professores de Antropologia, ao presenciarem semelhante espectáculo com os seus alunos, não se sintam impelidos a reflectir sobre a pedagogia utilizada na licenciatura.
    Mesmo sem exigir que todos os licenciados em medicina fossem clones de Hipócrates acredito que os docentes de medicina ficariam seriamente preocupados se os seus formandos se dedicassem a práticas que atentassem contra a vida alheia. Para um antropólogo, a praxe é tão contranatura como seria, para um engenheiro de ambiente, fomentar indústrias poluentes!
    Será que a obsessão relativista está a impedir a afirmação de uma ética na Antropologia? Mais do que a “matéria dada” não seria importante os docentes reflectirem sobre o que alunos fazem com essa “matéria” e que espécie de antropólogos estão a produzir? Não é importante lembrar que os docentes não são apenas produtores de artigos e teses científicas mas também “produtores” de antropólogos? E que é nas mãos desses alunos que estão a depositar o futuro da ciência que tão dilectamente defendem nas revistas da especialidade? Já terão reparado que as críticas que muitos alunos fazem ao curso e aos docentes são de tal modo inadequadas que só revelam que, mesmo depois de acabado o curso, nunca perceberam o que lá andaram a fazer?
    Bem, estou com vontade de dizer muitas mais coisas, mas estou cheio de trabalho e não me posso perder por aqui. Aliás, acho mesmo que tenho de deixar de passar por este Blog, porque me provoca uma terrível incontinência verbal que incomoda toda a gente e não me deixa trabalhar. E eu até sou um tipo muito discreto e caladinho, mas há coisas que “mexem” comigo.
    Obrigado ao autor e a todos os “colegas comentadores” por tudo o que me têm permitido aprender.

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