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Uni-versal

1. O meu dilema com a reforma universitária tem sido mais ou menos este: desejar que acabasse a universidade oligárquica, patriarcal, paternalista, e bafienta herdada do Antes; temer que se transformasse numa empresa, com produtos, resultados e “clientes compradores de saídas profissionais” do Hoje. Faltou e falta a do Amanhã (o tal que canta).

2. Perdemos a oportunidade de construir a terceira via: ter finalmente universidade, criadora de conhecimento técnico, científico e humanista, acessível a todos e como serviço público. A altura certa teria sido ali pelo 25 de Abril. Em vez disso fizemos dela um caos, rapidamente ultrapassado pela única força que havia com algum capital para (re)fazer alternativa – o bafio. Outra vez. Por isso agora consegue convencer-se a sociedade de que a neo-liberalização é a única via.

3. Apesar de ter horror a soar a velho do Restelo (e logo do Restelo…), a universidade que vejo esvair-se agora não me dá saudades da universidade de “antigamente”. Dá-me saudades de outra universidade. Saudades de futuro. Em breve não contará para nada o desejo ou a vocação, sentidos há 20 e tal anos atrás, de ser cientista, de investigar e publicar, de o fazer com preocupação de utilidade social, de educar e formar pessoas com desejo de conhecimento, racionalidade, crítica, criatividade… Em breve seremos funcionários de administração, pequeno-gestores de uma máquina de resultados orçamentais. Conteúdos? Baah… Obedeceremos às “personalidades da vida activa e empresarial” que constituirão cada vez mais os conselhos consultivos, os boards das fundações, os comités de avaliação…

4. Ilustração marginal e curiosa, ou sinal dos tempos: ficam vagas por ocupar em antropologia e a média do último acesso anda pelos 10 valores. Em economia e gestão de outra universidade concorreram duas vezes mais alunos do que o número de vagas e o último a entrar teve 15,95 (em gestão; dados disponíveis ontem no Público).

5. É preciso não sacudir a água do capote, claro. Fizemos asneiras, não planeámos o futuro, não criámos “produtos” interessantes, não fizemos bem o “marketing”, errámos nos “targets”? Talvez. Mas convém não esquecer que não foi para isso que muitos e muitas de nós escolhemos profissões académicas e científicas. Não “tirámos” gestão de universidades. E quando sugerimos alternativas válidas, testadas com êxito noutros países, não nos ouviram, ou interesses corporativos sobrepuseram-se. Um exemplo claro e simples: em Portugal faria muito mais sentido haver apenas licenciatura em Ciências Sociais, seguida de pós-graduações nas áreas disciplinares (ou temáticas) específicas. Bolonha teria sido a oportunidade para o fazer. Não foi.

6. A universidade caminha para deixar de ser universal. Passará a ser uni-versal: um só verso, um só lado.

This Post Has 10 Comments

  1. Vasco Pulido Valente, Público 01.07.2007 diz:

    A reforma da universidade

    O objectivo da nova reforma de Mariano Gago é claramente o de aumentar o rendimento económico da universidade. Isto assenta em duas premissas falsas, que nenhum ministro da Ciência e do Ensino Superior devia aceitar.
    A primeira premissa é a de que o valor material do conhecimento se pode prever. Há milhares de exemplos que provam abundantemente o contrário. Da física e da química à biologia e à lógica formal, a investigação “gratuita” ou, se quiserem, “pura”, chegou a resultados na aparência inúteis, que deram (e continuam dia a dia a dar) origem a indústrias cruciais da civilização moderna.
    A segunda falácia é a de que o mercado e o poder político podem, por assim dizer, pôr a universidade (vista como uma espécie intolerável de “torre de marfim”) ao serviço do desenvolvimento.
    Muito pelo contrário, introduzindo critérios particularmente perversos no trabalho académico, que não percebem e ninguém lhes pede que percebam, o mercado e o poder político só irão contribuir para a irrelevância e a paralisia da universidade.

    Um dia destes, o dr. João Salgueiro, com a velha audácia da ignorância, explicava ao povo que, existindo cursos que levam ao desemprego (uma verdade incontestável) e cursos que não levam, o Estado português, como o Estado da Coreia do Sul, não faria mal em orientar a criançada, através, por exemplo, da concessão ou recusa de bolsas de estudo. Suponho que esta ideia agradaria ao eng.º Mariano Gago e que entre os cursos que o dr. João Salgueiro se propõe eliminar estarão os cursos de “Humanidades”. Mas se o dr. João Salgueiro por acaso soubesse um pouco de História, de Filosofia ou de Sociologia talvez compreendesse que o elemento decisivo para o progresso ou atraso de uma sociedade é a cultura que nela domina e não recomendasse com tanta ligeireza reduzir a universidade a um mero fornecedor de mão-de-obra “qualificada”.

    É este, de resto, o grande erro do eng.º Mariano Gago. Como o nome indica, qualquer autêntica universidade pretende educar e formar um homem universal. A universidade indígena, sem campus e sem “vida em comum”, já não cumpre, ou provavelmente nunca cumpriu, esta função básica. Infelizmente, a reforma que o Governo prepara não se destina a corrigir a desagregação e o isolamento, que hoje sufocam o espírito académico. Pelo contrário, Mariano Gago quer partir tudo o que ainda resta de uma universidade mutilada e dispersa e subordinar cada bocadinho a uma tutela exterior e ao arbítrio do que governos passageiros esperam do futuro e pensam que o país precisa.

  2. Anonymous diz:

    «Já viu algum médico ou enfermeiro desempregado?»

    Não deves viver no mesmo país que eu, senão verias que há inúmeros jovens enfermeiros / as, recém-licenciados, sem emprego ou inundados de precariedade.

    O teu discurso é de Barão. Só te falta engordar e arrotar na mesa.

    «E sabe que eu tenho um vencimento menor do que se trabalhasse num call-center, apesar de ser licenciado, e não venho para aqui chorar nem armar-me em coitadinho?»

    Sé é assim tão mau, dá o emprego que tens a outro. Gostava de saber como é que te orientas com contratos de trabalho renovados de quinze em quinze dias em call-centers. Falas de barriga cheia, meu amigo. Conserva é o teu lugar, bajula muito bem os superiores, senão um dia vens para a rua e eu vou achar adorável, face ao discurso prepotente que apregoas.

    «E “mexer em papeis” é assim tão indigno e desnecessário?»

    Não, é uma maravilha. É o meu emprego de sonho. Podes dar-me o teu lugar?

    E qual é o problema de um aluno acabar uma licenciatura com 10 valores? Tens alguma frustração por isso, é? Ele não paga o mesmo que tu? Então, qual é o teu problema? Há muita gente que tira 10 valores na pauta, mas que é tão capaz ou mais que outra pessoa que tenha média 19 valores. Se você fosse inteligente, coisa que pelos vistos não é, saberia que o ensino em Portugal está, na sua maioria, vocacionado para aqueles que melhor decoram as matérias, e não para criar “bons” profissionais. Saber a teoria, muita a gente a sabe, agora a prática. Oh oh.

    Fazes uma petição para acabar com os títulos académicos na Função Pública, mas na volta só o conseguiste porque és licenciado. Por que razão é que não rejeitas o teu lugar e vais antes ser repositor?

    Neste país há gente que apregoa uma coisa, mas veste outra. É o mal de Portugal.

  3. Carlos diz:

    ————-
    Essa história dos funcionários públicos serem uns privilegiados já mete nojo (desculpem a expressão)! Quem disse que isso é um emprego assim tão sólido? Sabe que todos os anos são despachados colegas meus pelas razões mais absurdas que se podem imaginar? E sabe que eu tenho um vencimento menor do que se trabalhasse num call-center, apesar de ser licenciado, e nao venho para aqui chorar nem armar-me em coitadinho?
    E essa ideia de que os funcionários públicos passam a vida a mexer em papéis e afins vem de onde? Acha que é isso que se faz nos hospitais, nas forças de segurança, nas obras públicas e em tudo o mais? E “mexer em papeis” é assim tão indigno e desnecessário?

    Coitado de quem tira uma licenciatura?? COITADO?? E então quem nem isso consegue?
    Saberá que o que nao falta sao escolas profissionais com falta de alunos? Saberá que não se conhece praticamente engenheiros desempregados? Saberá a quantidade de cursos que os politécnicos têm para oferecer?
    Quem quer emancipar-se e ter sucesso no mercado tem de escolher uma formação adequada. Já viu algum médico ou enfermeiro desempregado? E um canalizador? E um marceneiro?

    Quando a vontade de trabalhar não é muita, a competência escassa e o mérito curto, muitos rapazitos correm para as licenciaturas com médias de entrada mais baixas, atrás do título de Dr., na esperança de que isso lhes sirva de alguma coisa. O problema é que o mercado de trabalho nao compra diplomas. O que ele compra é competências, que não estao – necessariamente – anexas ao diploma. Um bom profissional, em qualquer área tem sempre emprego, seja ele cozinheiro, asfaltador ou jardineiro. O que tem é de ser realmente bom! Não é uma licenciatura tirada à sucapa, com notas mínimas, num curso de humanidades, que garante emprego a alguém.
    A decadência deste país também se deve à atitude amorfa dos coitadinhos desses jovens. A triste verdade é que atingem o 12º ano à conta de muito copianço, apresentam médias de candidatura de pouco mais de 10 valores, vao para cursos que nem conhecem porque só nesses conseguem entrar, fazem o curso no dobro dos anos necessários, com recurso a plágios e toda a espécie de fraudes, e, sem saberem nada da vida, bradam “agora sou doutor e quero um emprego estável, bem pago e em que nao me canse muito”. Quando o empregador lhe perguntar o que sabem fazer, a resposta será: “não sei criar nem construir nada, mas sei passar a exames, nem que tenha de ser com recurso a métodos menos lídimos”.
    E – coitadinho – não consegue a desejada sinecura apropriada para um Dr..

    Triste país da doutorice que é este! Já agora, sugiro o vosso contributo no site: http://www.petitiononline.com/fimdosdr/petition.html

  4. Anonymous diz:

    Carlos, és funcionário público, nem tens muito que te queixar. Com sorte, ficas no mesmo lugar durante vinte anos, ou mais, a mexer em papeis e afins. Já outros, coitados, tiraram uma licenciatura, e passam os dias em empregos precários, call-centers, e afins. Vem-me cá falar da «beleza da cultura», quando queres construir uma vida e emancipar-te, quando tiras um curso que, praticamente, só serve «para tirar».

    Se o ensino não serve para arranjar empregos, por que raio é que hoje em dia praticamente «obrigam» moralmente, toda a gente a fazer o 12º, ser licenciado, e agora a «mariquice» do segundo ciclo – visto que grande parte das licenciaturas está a mudar, e no futuro alguém só se poderá intitular advogado, antropólogo, etc, se fizer também o mestrado -, que não é nada mais, nada menos, do que uma maneira das universidades ganharem mais dinheiro, continuando com os vícios antigos.

    Teu discurso é muito bonito, mas é para quem está bem instalado na vida, não é decerto para quem anda com a corda na garganta e para os milhares de jovens que estão mergulhados numa espiral de pessimismo e sem futuro neste Portugal há muito decadente.

  5. Luis Moreira diz:

    Tinha acbado o meu curso de Gestão e trabalhava numa mutinacional,como director financeiro.O Administrador para a Europa era licenciado em Filosofia e tinha relações com a grande Finança internacional.O filho único,tambem estudava Filosofia.Perguntei-lhe porque não Finanças,já que seria lógica vir herdar os contactos do pai.Respondeu-me que o que era necessário era ter cultura,mundo,capacidade de adaptação.E acrescentou.Quando precisar de um Financeiro paga-te a ti!

    Foi há 25 anos mas nunca mais me esqueci!

    Por cá estamos como antigamente.Estudamos matérias técnicas que nunca aplicamos na profissão!mgexfw

  6. CARLOS diz:

    Infelizmente, não posso estar em total acordo com alguns dos colegas que antes opinaram. Também fui aluno no ISCTE, até acabei o curso com uma média muito catita e também não consegui qualquer resultado profissional com a licenciatura que escolhi, mas não estou nadinha arrependido porque não estava a contar com nada. Graças a uma média de 12º ano relativamente generosa, poderia ter escolhido qualquer curso da área das ciencias sociais e humanidades, mas antropologia foi a minha primeira opção e sabia perfeitamente onde me estava a meter. A Universidade é um espaço de conhecimento, de discussão e – sobretudo – de criação. Supõe-se que os Politécnicos é que se destinam a formação profissional.
    Mas o que siginifica isso da Universidade “garantir que a sociedade tem de ABSORVER os seus alunos”?? Quererá dizer que não tem um emprego de acordo com a sua formação académica é um ser associal? Um pária? Um “dalit” do neo-liberalismo?
    Eu sou licenciado em Antropologia, sou um mero funcionário auxiliar numa autarquia obscura, sem perspectivas de mudança e nem por isso me sinto numa situação de exclusão social! Conheço um licenciado em Antropologia que tem um restaurante, onde cozinha e adora o que faz.
    Quando se diz que “não se consegue nada” com a Antropologia está-se apenas a reproduzir o discurso neo-liberal que categoriza o conhecimento como um produto (mais ou menos vendável) e apresenta uma visao do mundo na perspectiva mercantil, pensando num emprego mais ou menos rendoso. Com a Antropologia consegue-se muito, mas muito mesmo, e eu tenho-o conseguido. Tenho conseguido descobrir autores fantásticos, livros magníficos, pessoas extaordinárias, estudado contextos diversos (em pequena escala) e aprendido coisas como nunca supus que acontecesse. Foi para saber mais, para aprender, para descobrir, para ter o prazer indescritível de raciocinar, que escolhi estudar Antropologia.
    Haverá poucas disciplinas do saber que nos forneçam uma formação de base e um conjunto de ferramentas tão notável como a Antropologia, quando o nosso objectivo é estudar este fantástico “mundo dos homens”.
    A licenciatura do ISCTE não é perfeita nem nunca o foi, mas pelo que conheço é a melhores que existem e o sucesso dos seus alunos nas academias estrangeiras comprova-o. E eu não tive sequer o privilégio de cursar de acordo com o modelo de Bolonha, pois, de acordo com a estrututa que vi e com os syllabus que li, a licenciatura ficou bastante melhor. Até tive uma pontinha de inveja dos actuais alunos. Naturalmente, os dois ou primeiros anos serão mais complicados e dolorosos para profs e estudantes, porque o modelo tem de ser muito afinado. Afinal ainda só tivemos 9 meses de Bolonha. É cedo para lhe passarmos a certidão de óbito. Considero que toda a conceitualização que está subjacente ao novo modelo de licenciatura é de grande valia e torna este curso muito mais aliciante.
    O ISCTE tem muitos defeitos, o Departamento tem muitas insuficiências, o corpo docente não funciona como um “corpo” – no sentido literal da palavra – embora tenha dos melhores docentes que o nosso país pode oferecer; a licenciatura tem muito para ser melhorada, mas o cômputo geral é positivo.
    O paradigma neo-liberal que nos avassala é que não dá tréguas. No futuro próximo só haverão 2 tipos de licenciaturas: uma de ciências mercantis e outras consideradas com ciências auxiliares da primeira.
    Quereis “salvar” a Antropologia, augurando-lhe um bom futuro e empregos rendosos para os recém-licenciados? È simples – basta fazer crer aos “empresários” (nova aristocracia do Império neo-liberal) que os antropólogos são especialistas em engenhar esquemas ardilosos para vender areia aos árabes e gelo aos esquimós! Será o sucesso garantido. Mas será isto que vós quereis da Antropologia?
    Sim, trata-se de VENDER! O nosso modelo social mais prestigiado assenta na especulação mercantil (ou no “ciganear”, como se dizia antigamente e sem ofensa para os ditos). A produção – a arte do artífice, daquele que possuia um conhecimento produtivo (relojoeiro, marceneiro, sapateiro, encadernador, …) – está completamente desprestigiada. Isso de trabalhar na “ferrugem”, de usar fato-de-macaco é para os chineses, para os monhés e para os pretos! O que está a dar é a fatiota da moda, a gravatinha de seda, o sapatinho reluzente e a pose do Hall Street Broker – aquele que não sabe criar nada, que não produz nada tangível, mas que enriquece à conta da especulação sustentada na miséria alheia. Aquele que despreza o conhecimento, porque este não é constituível como sinal exterior de riqueza, e que troca os livros por ecrans de TV cada vez mais gigantescos.
    Se há alguma coisa em que a licenciatura falha com mais gravidade – na minha modesta opinião – é precisamente numa formação ética dos seus estudantes, o que só se consegue com tutorias mais frequentes (e talvez com umas doses reforçadas daqueles franceses “chatos”: Foucault, Bourdieu, Dufour. Levi-Strauss). Não se trata de proselitismo nem politiquice, mas apenas de fazer entender a muitos (quase todos) os alunos qual pode ser a “missão” da Antropologia e por que não é possível ser – simultaneamente – antropólogo e neo-liberal. E que, ao contrário dos cientistas mercantis, o antropólogo só consegue aprender se tiver uma permanente humildade e se considerar um eterno neófito.

    É que a Antropologia é mais do que uma ciência da humanidade – é uma ciência PELA humanidade!

    Já escrevi demais. Peço desculpa pelo emaranhado tautológico, mas a janelinha do Blogger torna as releituras muito complicadas.

  7. Anonymous diz:

    (são duas partes): II

    Abrir caminho não pode ser feito pelo Zé Anónimo. Aliás, poder até pode, mas são vocês, docentes «conhecidos», que têm a voz mais alta e podem fazer maior pressão perante a sociedade, porque no fim, todos aqueles ligados à antropologia, ganhariam com isso. O problema é que eu não sei se uma antropologia mais aberta, dinâmica, iria interessar a alguns dos académicos que há anos estão bem instalados nos seus lugares. Maior abertura, maior debate, maior confronto, maior crítica, maior a visibilidade de gente com pés de barro e sem capacidade que ocupa, há muito, bons lugares. Daí a antropologia em Portugal ser muito pouco crítica e ambiciosa.

    Eu acabei este ano a minha licenciatura de antropologia no ISCTE, e, para ser sincero, tenho muitas críticas, sendo que, se algumas são em relação ao próprio ensino universitário, outras vão directamente para o departamento de antropologia e aos docentes que há quase vinte anos leccionam na instituição.

    De uma forma geral, acho que grande parte do corpo docente está completamente longe daquilo que os alunos querem que seja um curso de antropologia hoje em dia. Eu apanhei o ensino misto: o ensino antigo, e o «novo». Portanto, a minha review do curso, terá sempre que ser feita mais em relação ao modelo antigo que ao «novo».

    De uma forma geral, o curso praticamente não mudou nos últimos vinte anos. Basta uma análise rápida para verificar que desde 1982 até 2001, o curso não sofreu uma única alteração. A grande alteração ocorre em 2002 e é basicamente uma troca em nome de disciplinas obrigatórias, e o surgimento de umas novas optativas. A partir daqui, o curso só mudará significativamente com o Bolonha, o ano passado, portanto. Como é que um curso mudou tão pouco em vinte anos? Eu acho isso inadmissível! Aliás, basta olhar para a estrutura curricular de hoje em dia, e verifica-se que, tirando a nova disciplina optativa leccionada pelo Dr. Filipe Verde, na sua grande maioria, todas as outras já existiram praticamente desde o início do curso ¾ salvo raras excepções que podem ser identificadas facilmente. Como é que é possível esta inércia e incapacidade de reinventar os programas e as disciplinas? Como é que é possível que não haja, por parte dos docentes, uma capacidade de explorar temáticas nunca antes exploradas em Portugal, levando os alunos, invariavelmente, a temas batidos, clássicos, e sem sentido na era contemporânea? Esta incapacidade de pensar, reflectir, e trazer coisas novas à Academia, é completamente assustadora e deprimente! Já para não falar que muitas das disciplinas obrigatórias existentes agora no novo programa da licenciatura, de novo não têm nada: nomes diferentes, programas iguais àqueles existentes outrora. E ainda uma outra questão: como é que é possível levarem e fazerem este tipo de ensino, sem que ninguém controle e peça satisfações? O mundo académico está a bater no fundo, mas devido, sobretudo, à gente que o controla e dirige.

    É da minha opinião, que grande parte do corpo docente de antropologia do ISCTE, devia ser substituído ao fim destes três anos do programa inicial do Bolonha. Não estou aqui a fazer críticas pessoais, estou apenas a constatar um facto real. A antropologia do ISCTE precisa de sangue fresco, irreverente, sangue que tenha pouco a haver com os docentes que estão hoje instalados. O facto de existir académicos portugueses, que mal ligam à academia portuguesa, acho que é sintomático da urgência de revitalização que é necessário pôr em prática.

  8. Anonymous diz:

    (são duas partes): I

    «Ilustração marginal e curiosa, ou sinal dos tempos: ficam vagas por ocupar em antropologia e a média do último acesso anda pelos 10 valores.»

    Eu acho que a questão deveria ser outra: o porquê de existir tantas vagas a priori? Não consigo compreender o porquê de existir N e N vagas todos os anos em antropologia ¾ e outros cursos ¾, quando praticamente ninguém arranja emprego na área, basicamente porque a antropologia não existe fora do ensino e da investigação. Não haverá hipocrisia por parte das universidades em vender cursos às postas que não dão praticamente para nada? Obviamente que uma universidade não é um centro de emprego, mas terá, obrigatoriamente, que garantir ao aluno, que a sociedade irá absorver aquelas pessoas, através de sinergias entre as instituições e as empresas/identidades.

    Ano após ano, os alunos investem numa universidade mais de 900€ e tal euros. O aluno não está só a investir na sua educação, mas está também a investir numa universidade que, se o aluno for bem sucedido na sua área, irá ganhar publicidade praticamente grátis, visto que toda a gente vai ver no CV dos indivíduos que estes optaram a instituição X ou Y. Posto isto, porque raio não há coragem de diminuir as vagas, ou até, no limite, fechar as inscrições num determinado curso, durante um ano ou dois? É óbvio que ninguém o faz: porquê? Bem, porque as universidades estão na falência e precisam de dinheiro de alunos tipicamente idiotas que pensam que irão ter futuro ao tirar um canudo qualquer. Daí se vender gato por lebre.

    Por que raio é que os docentes universitários, em vez de se queixarem que o Estado corta financiamento às universidades, não reclama melhor gestão às próprias instituições? Há muito dinheiro desperdiçado e mal controlado nas universidades portuguesas, aliás, como em todas as áreas da Função Pública. O descontrolo serve sempre a alguém, menos ao Zé Povinho, neste caso, os alunos.

    Como recém-licenciado em antropologia, vejo que tenho uma licenciatura que não me serve praticamente para nada, além de ser repositor num hiper ou trabalhar num call-center. Será que eu não sabia onde me estava a meter? Mea culpa, sim, eu sempre soube que me iria meter num curso sem saída, mas eu não procurava um emprego na universidade, procurava, isso sim, um curso estimulante a nível intelectual. Findado o curso, reparo agora que não tive nem um nem outro no ISCTE. De qualquer das formas, muito do mau estado da antropologia em Portugal, deve-se, sobretudo, a vós, caros académicos. Fechados na Academia, dar pancadinhas uns aos outros, e a bajularem-se com trabalhos, na sua maioria, muito fracos comparados com a elite internacional, não contribuem nada para a afirmação e divulgação dos usos da disciplina na sociedade portuguesa. Comparativamente com a sociologia, o estado da antropologia em Portugal é quase ridículo. Paradigmático disso mesmo, é o facto de quando se convida alguém para comentar um determinado facto quotidiano nos media, nunca se recorre a um antropólogo, sendo sempre um psicólogo, sociólogo, etc. É um facto, por exemplo, que o Dr. MVA já apareceu algumas vezes na TV, tal como a Dr.ª Rosa Perez e o Dr. Manuel João Ramos, de qualquer das formas, num espaço de 10 milhões de habitantes, e umas quantas centenas ou milhares de antropólogos, é quase ridícula a visibilidade da antropologia em Portugal. Por norma, as pessoas perguntam sempre o que é ser «antropólogo», o que só mostra o que eu indico. Sair da Academia e do discurso de elite, é preciso!

  9. Xico diz:

    Estou plenamente de acordo consigo (até que enfim!)
    A universidade devia ser um lugar onde se vai em busca do conhecimento, independentemente se isso servirá para um fim utilitário ou não.
    Quando é para arranjar uma ferramente para o emprego, então não pode chamar-se universidade. Infelizmente aconteceu e está a acontecer. Vejam-se as privadas. A começar pelos espaços onde não é possível qualquer intercâmbio de outras valências que não sejam as meramente “da profissão”. São escolas profissionais mais nada.

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