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Eu até queeria…

Queer – no sentido mais “popular” e não no académico – é sem dúvida simpático. Quebrar fronteiras identitárias, ir mudando e “performando” sinais identitários, até mesmo transpor e transgredir a própria ideia de identidade, é sem dúvida atraente. Mas.

Por um lado, o nosso tempo de vida e a nossa individualidade; por outro, os contextos históricos em que vivemos. Quanto ao primeiro: a nossa identidade constroi-se em grande medida justamente pela definição do que não somos. Define-se, goste-se ou não, pelo estabelecimento de fronteiras simbólicas e práticas. Podemos (devemos?) experimentar, forçar a barra, fazer por abrir horizontes. Mas “no fim do dia”, e no plano da sexualidade, o que queremos mesmo fazer? O que sentimos mesmo? E no nosso limitado tempo de vida? A identidade é uma prisão? É. Mas…

Quanto ao segundo: em cada período e contexto há uma tipologia de identidades; essa tipologia estabelece também uma hierarquia; há identidades normativas e privilegiadas e outras perseguidas e estigmatizadas. Ao contrário do que alguns pensam, a transcendência das identidades não cria grandes engulhos ao “sistema”. É até bem possível que se coadune com ele e com o seu guião de indivíduos consumidores, instáveis e sem biografia.

Em suma: eu gostaria muito de ser (estar) queer, mas estou “condenado” a ser gay. A minha identidade sexual está limitada pelos meus desejos e erotismo e por identificações externas (é contra estas, reconheço, que o gesto queer pode ser mais eficaz); e a minha afirmação de cidadania é estimulada pela vontade e necessidade de combater a opressão.

As coisas complicam-se um bocadinho se introduzirmos a variável “Portugal” neste cenário. Receio que aqui “queer” possa rapidamente ser canibalizado e entendido como algo de semelhante a “metrosexual” – e um óptimo alibi para a continuação de muitos armários. Nada melhor para que tal aconteça do que a oclusão das categorias “gay” e “lésbica”.

This Post Has 3 Comments

  1. por acaso também vejo os queer como um estado interessante de pode rquebrar as fronteiras deste corpo sexuado e culturalizado que nos acompanha. Também gostava de poder decidir ser homem ou mulher, gay, lesbica, bi ou hetero sem tantas problemas na minha cabeça.

    Enquanto não me livro dos preconceitos, continuarei hetero.

    Foi bom lê-lo.

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