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Libertação, igualdade, queer.

O movimento lgbt caminhou de um paradigma de libertação para um paradigma de igualdade. O primeiro juntava as energias da contra-cultura, vinda dos anos sessenta, e do pensamento revolucionário. Via na afirmação da homossexualidade, no seu desocultamento, na criação de uma cultura e comunidade, um gesto de emancipação da heteronormatividade e, por vezes, um gesto de superação da mesma e do patriarcado. Em certos momentos e contextos esse paradigma podia conduzir mesmo ao separatismo. O seu “modo” cultural era a afirmação da diferença. O segundo tem uma raiz liberal e procura sobretudo a obtenção de direitos. Também aposta no desocultamento e na criação de cultura e comunidade, mas numa perspectiva mais plural e tem como “modo” cultural a busca da “indiferença”. Um não substituiu o outro, ambos persistem, e elementos de ambos podem encontrar-se nas mesmas pessoas, organizações, estratégias, etc. Um terceiro paradigma tem emergido – o queer. Pretende superar a noção de definição identitária. Nisto, partilha elementos contra-culturais e de libertação, mas fá-lo num modo que pode também ser consonante com um certo individualismo, próprio de visões pós-modernas que podem acabar por se dar bem com os modelos do decisor racional em busca do auto-interesse, definindo a identidade individual através da performance de si e do consumo. Os 3 paradigmas e modos – libertação, igualdade, e queer – podem e devem coexistir, mas têm funções e virtualidades específicas. No plano da acção política o paradigma da igualdade tem provado ser o mais eficaz. E no plano ético é o que garante mais liberdade e diversidade, ao contrário do que dizem os seus detractores, que o apelidam de “burguês” e demasiado preso aos procedimentos da “democracia liberal”. Não vejo nisso um problema, porque este paradigma não impede uma análise de longue durée da condição lgbt, análise essa baseada numa abordagem de libertação, nem impede uma vivência cultural, individual e saudavelmente provocadora de tipo queer.

This Post Has 1 Comment

  1. Pedro diz:

    Que bom encontrar finalmente um label para o que se diz, pensa, age e faz (sendo que um ‘queer’, sendo contra as etiquetas, resistira sempre aos labels ate a ultima gota). Resistir e viver….ou habito…como todos os habitos, ja nao sei! Obrigado por este posting (iluminador)!

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