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Netidentidade

Primeiro descobriu-se que a blogger lésbica síria Amina Arraf era, afinal, o norte-americano Tom MacMaster. Agora descobriu-se que Paula Brooks, a editora do site lésbico Lez Get Real era, afinal, Bill Graber. Mil interpretações seriam possíveis: tratar-se-ia de uma quebra do contrato de ética entre autores e leitores; de um jogo literário em torno do pseudónimo, do anonimato, etc; de mais um caso de atitudes patriarcais em relação às mulheres – desde as fantasias lésbicas de alguns homens hetero até ao paternalismo face à dupla discriminação das lésbicas; de uma forma torcida de orientalismo, no caso da suposta blogger síria. E por aí fora. Mas o mais interessante parece-me estar noutro lado: o facto de as identidades e a sua performance não estarem necessariamente ligadas à essência corpórea e biográfica dos sujeitos. Ou seja – e a pergunta é provocatória: por que hão-de Tom ou Bill (Amina ou Paula?) ser menos mulheres (e menos síria, num caso) ou menos lésbicas no momento da afirmação de ideias e valores? A verdade é que se o simétrico acontecesse – duas americanas fazendo-se passar por gays – a coisa era aceitável; homens fazendo-se passar por lésbicas já permite a emergência, e com razão, de um discurso sobre a dupla discriminação e subalternização que as lésbicas sofrem.

This Post Has 1 Comment

  1. Tangas diz:

    por isso defendo que os blogues e outros net-sítios devem mostrar a cara dos seus autores, embora isso também seja objecto de trafulhices várias, em relação directa com a capacidade e vontade de trafulhar de cada um. no entanto, não creio que grande mal venha ao mundo por se experimentar este e aquele “disfarce” ou “maquilhagem”. estar na pele de outro é muito atractivo. o pior é quando se leva a brincadeira ao ponto de fazer outros acreditar, confidenciar e trocar com base no embuste. ninguém gosta de ser enganado e a mentira é sempre um passo para alguma coisa que nunca mais se conserta.

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