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Alguns equívocos terrorísticos…

Estranho, o argumento de Nuno Severiano Teixeira, de que os atentados na Noruega são o reverso do 11 de setembro, opondo “fundamentalismo cristão” a fundamentalismo islâmico. Sem querer, esta linha de argumentação acaba por remeter para o segundo a origem do primeiro, que surgiria, assim, como reação.

Por outro lado, há aqui uma série de equívocos. O primeiro tem a ver com a ideia de que o fundamentalismo islâmico é estritamente religioso. Ora, as visões mais radicais do Islão vêem-no como uma ordem social e política (como nos seus primórdios), sem a distinção moderna e pós-religiosa tipicamente ocidadental entre “o religioso” e “o político” . O fundamentalismo islâmico apresenta-se como um programa político de reação à secularização. No ocidente, por outro lado, a ideia de distinção entre os dois campos é ilusória em larga medida. Muita da nossa “política” é a aplicação de preceitos “religiosos” (e no Ocidente o cristianismo também já foi uma ordem social e política…). O que une tudo isto – “religiões” e “políticas” – é a… cultura. Só por razões heurísticas distinguimos aqueles dois campos, mas numa análise cultural eles devem ser vistos de modo entrelaçado. O caso do terrorista norueguês não tem nada de tão novo assim: a extrema-direita, o nacionalismo xenófobo, e formas várias de cristianismo militante/”militarista”, sempre se alimentaram mutuamente, com símbolos e retóricas e afetos que são parceiros de cama.

Uma outra linha de argumentação, esta mais genérica (em jornais e comentários), é a que insiste no caráter psicótico dos atos e do seu autor. Isto individualiza o assunto, retira-lhe a dimensão social e política, desautoriza o que argumentei no parágrafo anterior. Acontece, todavia, que as ideias do terrorista são parte de uma constelação de símbolos e significados partilhados por muita gente e organizações. Desta vez aconteceu assim, da próxima já pode ser um ato de uma organização. Não haja grandes ilusões quanto a isso…

This Post Has 1 Comment

  1. Francisco diz:

    O assassino Breivik afirma a importância do background cultural cristão – ou, mais precisamente, judaico-cristão – pois não pode ser cristão quem mata (do mesmo modo que Islão significa Paz, etc…). O judaísmo, pelo contrário, não proíbe o derramamento de sangue, desde, claro, que não seja sangue judeu, já que este “vale mais” do que o sangue dum árabe ou dum cristão. Triste, aliás, a materialização histórica e política desta religião numa nação de bárbaros assassinos e criminosos que a fizeram à bomba e, justamente, fazem assentar a sua supremacia em preceitos racistas, na humilhação, no roubo e na desumanização dos seus vizinhos. Por isso mesmo, talvez, o assassino Breivik é um acérrimo defensor do estado de Israel e um anti-nazi assumido, apesar de partilhar com os extremistas da direita, ultra-nacionalistas e neo-nazis, o ódio à esquerda e aos seus valores. De cristão tem pouco, ou mesmo nada. De judeu tem bastante, a começar pelo ódio aos árabes, que é o verdadeiro fundamento do seu manifesto
    É simples para a opinião pública engolir que o assassino Breivik é um louco e que agiu sózinho, No entanto, parece que o método usado para detonar o ediício tem a assinatura da mossad… Parece, até, que a Noruega está na vanguarda do bloqueio a empresas israelitas, por violação dos direitos humanos, e que a Juventude trabalhista, na véspera do dia fatídico e no mesmo local, tinha pedido ao ministro dos negócios estrangeiros norueguês para boicotar Israel e aprovar nova declaração de apoio à criação de um estado palestiniano independente e ao recuo da ocupação sionista para as fronteiras anteriores à guerra de 1967..
    Um louco movido pelo ódio teria facilmente destruído mesquitas ou bairros de imigrantes. Matar os seus próprios compatriotas vem abrir um precedente perigoso para o futuro dos conflitos internos na Europa…
    Acredito que as repercussões poderão ser brutais, sobretudo na geração que tiver 20-50 anos em 2083, para quem a distância destes eventos poderão facilmente sujeitá-los a um revisionismo pior que o dos actuais negacionistas do Holocausto. Seria preciso, também sondar as ligações da Loja a que pertencia o assassino Breivik. Com a P2 e Paulo VI, ou com Noriega e Oliver North, veio tudo ao de cima. A verdade são três olhos e oito cotovelos.
    Confesso-me muito preocupado.

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