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Borboleta

Estamos em 2011, tenho 51 anos e, no entanto, na antropologia continuo a ser reconhecido como o autor de Senhores de Si, de 1995 – e o meu livro mais divulgado; Continuo a ser abordado por pessoas que pensam que ainda escrevo uma crónica semanal no Público, coisa que fiz entre 1992 e 1997; e a maior parte dos estranhos associa-me ao Bloco de Esquerda, em cujo início estive envolvido, em 1999 (e do qual me desfiliei em 2006). Entretanto, para mim o meu trabalho e livro mais importante é o último (e será sempre o último, creio), de 2009; depois das crónicas do Público dediquei-me sobretudo ao meu blog; e a passagem pelo Parlamento como independente pelo PS é o (f)acto político com que mais me identifico. Pergunto-me: porque são as coisas assim? E procuro uma resposta que possa ter algum interesse universal e não apenas narcísico. Creio que a resposta está nisto: uma pessoa fica marcada pela sua fase borboleta, pela saída do casulo depois da fase larvar. Na antropologia, na opinião, na política, aqueles “troféus” corresponderam a um coming out – na acepção genérica do termo, e não apenas (mas também) na estrita. E tudo se deu ali pelos trintas, quando – na família, no amor, no trabalho, na intervenção… – escolhemos o que vamos guardar da juventude e o que queremos aproveitar da maturidade. Não importa contrariar as percepções dos outros, insistir no que para nós é mais importante – e até devemos colocar a hipótese de a sua percepção ser também um juízo de valor, e eventualmente correto, sobre o que fizemos e fazemos. Tal como com os livros, somos “obra aberta”, a leitura que os outros inscrevem em nós.

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  1. Berliner/Bellutti/Nordano diz:

    “Sim,
    se a gente se visse
    como nos vêem os outros,
    não se reconhecia.
    Mas isto é verdade
    também para os outros.”

    Miguel Torga
    ‘Diário VIII´

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