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CRÓNICA, 1

BANAL E AINDA BEM

Há pouco tempo li The Promise of Happiness de Sara Ahmed. O livro analisa e critica o boom de estudos e indicadores sobre felicidade. Estes seriam o reflexo de um complexo cultural marcado pelo desejo – e pela promoção desse desejo – de felicidade. Apesar de interessante, as perspetivas críticas e de desconstrução começam a parecer-me cada vez mais mancas em alguns aspetos éticos essenciais. Desde logo porque se esquecem de que todos nós vivemos em circunstâncias culturais que criam disposições afetivas ou emocionais que não são desconstruíveis sem mais nem menos. Depois, porque muitos autores nunca nos revelam, a nós leitores, se se “libertaram” daquelas circunstâncias. Convinha saber. Não estou de modo algum a defender um relativismo absoluto ou a desautorizar as perspetivas críticas. Creio é que seria bom – isto é, tornaria mais vidas melhores – se conseguíssemos equilibrar o trabalho crítico e de desconstrução com algum realismo quanto aos termos e significados com que vivemos os nossos afetos.

Levado pela curiosidade (mas terá sido só por ela?) comprei um livro de auto-ajuda, assumidamente escrito por alguém da Psicologia Positiva, uma das áreas académico-industriais que Ahmed analisa. Tudo espremido, o livrinho navega entre uma dicotomia: entre felicidade hedónica e  felicidade eudomónica (simplificando, fazer the right thing). Sugere autoanálises, propõe exercícios e, claro, tudo baseado numa visão individualista e da pessoa como uma autoconstrução. Material mais do que suficiente para uma crítica cultural e uma desconstrução a la Ahmed? Sem dúvida. Mas: a pessoa que leia aquilo sente-se verdadeiramente uma pessoa individual e em autoconstrução e pode efetivamente – given the cultural circumstances – criar uma vida mais feliz. De novo, given the cultural script.

Curiosamente, e não sem algum orgulho e satisfação, percebi que tudo aquilo que agora é sistematizado “cientificamente” e vertido em auto-ajuda é algo que já tinha percebido como pessoazinha que anda a navegar pela vida há uns anos. Se não pela prática, que nem sempre somos bons a tornar realidade os nossos valores, pelo menos em teoria. Então deixem-me armar-me em “ajudador”. Sentir-se feliz – ou, melhor, fazer por isso – é, em primeiro lugar (e a ordem não é valorativa), dar vazão ao hedonismo no seu sentido mais nobre, de coincidência entre o bem-estar sensorial e o emocional (aceitemos a dicotomia cartesiana da coisa): pegando nos meus favoritos, ir à praia, ouvir música e dançar, fazer sexo, ter prazer a comer e beber, etc. Sentir-se feliz é, em segundo lugar, encontrar sentido para o que se faz in the long run e até mesmo enquanto se faz: criatividade, trabalho humanamente relevante, engajamento com os outros ou a sociedade, parentalidade, etc. E todas estas coisas com um e/ou entre elas e vários etcs. no fim.

“Sentir-se feliz”, no entanto, precisa de uma terceira coisa que deve, idealmente, estar presente na parte hedónica e na parte eudomónica: as relações com pessoas concretas, com quem a intimidade e a cumplicidade se constroem. Aquela praia, aquele trabalho, aquela causa são mais prazeirosos e mais criadores de felicidade (para o próprio, para os outros e, de novo, para o próprio) quando e se feitos com significant others (e não, não tem de ser cônjuge).

Banal? Claro que sim. That’s precisely the point. E algo que já sabemos há muito. Mas que, por uma razão ou outra, muita gente parece não conseguir. (E há muita gente a quem isso é desconseguido).

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