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CRÓNICA, 2

GRANDES GUERRAS, GRANDES FORTUNAS

Acordei a pensar “este Passos Coelho ainda faz de mim comunista”. Mas não é preciso. Acontece simplesmente que as medidas tomadas a 7 de setembro de 2012 são de uma transparência tal que um slogan mais esquerdista se torna adequado como descrição: quem ganha é o grande capital, quem perde é quem trabalha por conta de outrem. Na linguagem supostamente neutra e técnica, trata-se de transferências das famílias para as empresas. Em linguagem preocupada em descrever o real, trata-se de aumentar as contribuições de quem trabalha – reduzindo o rendimento – e trata-se ainda de diminuir as contribuições das empresas. Alguém ainda tem alguma dúvida de que este é o governo do grande capital? Call me a communist. See if I care.

Mas o que aconteceu a 7 de setembro de 2012 não foi “apenas” isto. O que aconteceu revela algo de mais profundo: tal como nas guerras se fazem grandes fortunas, o mesmo parece acontecer nas crises. De facto, a performance de rapaz bem-comportado de Passos Coelho não conseguiu esconder nem a mentira, nem a manipulação do argumento, nem o que está em causa. E o que está em causa é aproveitar a crise, tal como uma guerra, para aumentar a acumulação de capital das grandes empresas – as que estão bem, mesmo com a crise, e que agora melhor ficarão. Sem que haja nenhuma evidência, a não ser pura crença ideológica, de que essa situação terá efeitos benéficos para o emprego e a recuperação da crise. A analogia com as guerras não fica por aqui. Muitas guerras são inventadas, em grande medida pelos fornecedores de armamentos e pelos especuladores da terra queimada. Ora pensem lá então se não é verdade que. Poderá estar aí a explicação para o facto único de termos um governo mais troikista do que a troika.

E ao terceiro parágrafo é que é de vez. As medidas anunciadas a 7 de setembro de 2012 têm ainda outra característica: elas constituem uma espécie de golpe de estado na democracia portuguesa e no seu ordenamento constitucional. O Tribunal Constitucional foi desautorizado, pois não só não haverá nenhuma reposição dos salários (chamam-lhes “subsídios” – e nunca deveríamos ter deixado acontecer essa manipulação semântica) como a sua anulação se expande. Não era certamente isso que se queria dizer com “equidade” – a não ser eventualmente na Coreia do Norte, onde toda a gente é equitativamente sub-humana. Não era certamente isso que queria dizer o Presidente da República – mesmo sendo essa outra história, a de um veterano da “crisificação” do país e que agora se vê com um aprendiz de feiticeiro como primeiro-ministro ao colo.

Estamos claramente perante o segundo PREC. Desta vez significando Processo Reacionário em Curso. Todas as formas de resistência e contestação são bem-vindas: as parlamentares e partidárias, as manifestações e greves da CGTP e UGT, as iniciativas da cultura dos Indignados, ou iniciativas como o Congresso Democrático das Alternativas. E não vale a pena reproduzir a lamúria sobre a suposta passividade dos portugueses. Não há resposta para a pergunta sobre o porquê disso, muito menos recorrendo a supostas explicações sobre o “caráter nacional” ou a “cultura”: a bullshit é, essa sim, equitativa, e a antropologia tem-na em doses tão grandes como a economia. O que importa, sim, é carregar no interruptor certo. E esse é o Partido Socialista, pela sua natureza transversal, de partido de governação, e de envolvido inicialmente no processo de “resgate”. Neste momento nada de nada deve prender já o PS ao famoso (ou infame) memorandum da Troika. O PS já saiu à rua no PREC, deveria apelar ao mesmo neste autêntico processo revolucionário – um momento em que os astros se reuniram para permitir à pior direita destruir as bases económicas e sociais de uma sociedade minimamente decente. Lembram-se da luta pela igualdade no acesso ao casamento civil? Sem a persuasão do PS da justeza da causa nada teria acontecido. O mesmo se aplica agora. (E isto até ajuda a perceber como as questões de direitos civis e as de direitos económico-sociais não se separam nem se hierarquizam).

Este é o governo do grande capital. Ponto. Este é o governo que obedece à visão do grande capital, que percebeu ser esta a oportunidade de lucrar com a economia de guerra. Percebamos isto de uma vez por todas. Call us communists. See if we care.

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