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CRÓNICA, 4

PRIMAVERA EM SETEMBRO

No dia 15 de setembro o governo entrou em coma. Bastou uma semana depois do anúncio de novas medidas de austeridade para que o país inteiro se rebelasse. Porquê? Porque toda a gente percebeu que já não se tratava de medidas de austeridade, mas sim de injustiça. Pura e simples injustiça. Ficou claríssimo que Gaspar aplica um guião ideológico baseado numa crença. Uma crença que nem sequer é partilhada pelos supostos destinatários e beneficiários das suas teorias. Ficou claríssimo que Passos Coelho tem fortes limitações intelectuais, para não referir as éticas ou as de inépcia política: deslumbrou-se com o papa das finanças e, como é comum entre os pobres de espírito, virou mais papista do que o papa. Juntou-se a fome à vontade de comer, aliás, pois tanto Gaspar como Passos Coelho têm teimado em ser mais troikistas do que a troika. Numa semana, o governo passou de gestor de uma suposta inevitabilidade a fautor de uma revolução antidemocrática. Não passou – revelou-se.

As pessoas perceberam, depois do anúncio da semana passada, que afinal não estávamos apenas perante uma situação de urgência nacional face ao défice (assunto em sim mesmo discutível, sobretudo quanto à forma como a Europa (não) lida com o assunto); perceberam que estávamos perante um aproveitamento para levar a cabo uma revolução insana – uma espécie de projeto de contornos evangélicos, milenaristas. Todos para a Guiana e suicídio em massa. Gaspar e Passos Coelho nem sequer perceberam o que estavam a fazer. Portas e o CDS perceberam perfeitamente – e daí a pequena rebeldia interna à coligação. Porque Portas e o CDS têm experiência política, sabem até onde se pode ir e, concorde-se ou não com eles, têm contacto com o país. Gaspar e Passos Coelho, esses, são tão estrangeiros como a troika: não sabem o que se passa nas casas, nas ruas, nos locais de trabalho, pela simples razão de que isso é a realidade – e a realidade é uma maçada que tende a estragar as teorias e os amanhãs que cantam. Como líder de um partido da coligação, Portas terá de decidir se é ou não consequente: ou exige o recuo nas novas medidas ou deve acabar com a coligação.

No dia 15 de setembro o governo entrou em coma. Não porque tivesse havido uma pequena manifestação de Indignados; não porque tivesse havido uma manifestação de partidos de esquerda; não porque tivesse havido uma manifestação da CGTP. Não houve nada disso. Houve enormes manifestações de pessoas anónimas, desligadas de organizações, empunhando cartazes feitos em casa, com frases espontâneas e sem marketing político por detrás. Gostei da maior parte das frases? Não. Gostei do tom antipolíticos e antipolítica que algumas demonstravam? Não. Mas é o que há. O que há saiu à rua, para lá da própria organização e controlo das burocracias da nossa política. E, felizmente, saiu à rua usando imagens do 25 de abril, da democracia, de tudo o que se fez ao longo de três décadas para tornar o país mais decente. Tudo aquilo que se percebe agora claramente que Gaspar e Passos Coelho querem eliminar em nome da refundação absoluta de tudo. A refundação pela terra queimada. A refundação pela vida para lá da vida, depois do suicídio coletivo de tudo.

Tudo agora será um arrastamento penoso, feito de teimosias e orgulhos, feito da gestão palaciana da e pela pecha cavaquista que nos atormenta há décadas, de pequenas diatribes no PSD, de provocações do CDS – e da ausência de uma alternativa de esquerda consistente, da mistura de nevoeiro e cartoon da atual liderança do PS ao patético ensimesmamento das esquerdas à sua esquerda. A única força que pode dar um par de estalos ao perigo delirante de quem nos governa e ao marasmo da oposição é a força que saiu à rua a 15 de setembro. Não é por acaso que é a mesma força, trinta e tal anos depois, que saiu à rua em 1974. Uma primavera em setembro. 

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