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CRÓNICA, 5

UM FIM-DE-SEMANA NA LAVANDARIA

Os “filmes da nossa vida” têm a ver sobretudo com os “momentos da nossa vida”? Sem dúvida. Mas se esses filmes e esses momentos não tiverem algo a ver com o “ar dos tempos” eles não serão bons candidatos. A tese subjacente é simples: não estamos sós, não somos sós. Os “momentos da nossa vida” têm quase sempre a ver com as nossas relações humanas – ou a ausência delas. E os “filmes da nossa vida” são aqueles que conseguem mostrar o fio de seda que nos liga àqueles com que nos identificamos, aos guiões que predominam nas nossas estórias – em suma, ao mundo.

My Beautiful Laundrette, de Stephen Frears, estreado em 1985, é para mim um desses filmes. Não será um grande filme, mas esse não é um critério para “filme da vida”. Lá está: naquele filme fez-se um clique qualquer e o fio de seda transformou-se em teia. Muitos anos depois, em 2011, estreou Weekend, de Andrew Haigh, que só agora vi. E de repente a teia apertou-se. Qualquer coisa liga os dois filmes. Sim, será a herança do realismo britânico, será o ambiente social retratado, será a atenção à banalidade das personagens, será o humanismo, será, será. Mas o que também liga os dois filmes – aqui vamos de novo – é “a minha vida” e o modo como estes filmes conseguem balizar momentos biográficos com momentos… sociais, culturais, do tal ar do tempo.

Laundrette coincidiu aproximadamente com o meu coming out. E coincidiu com um período juvenil de experimentação, curiosidade, descoberta, amores que começavam depressa e depressa acabavam. Coincidiu também com a descoberta do mundo como variedade, pois vivia no estrangeiro então e as descobertas dos corpos e dos amores era também a descoberta de outras línguas, culturas, pertenças, uma teia de encontros e desencontros de comunicação. A capacidade de Laundrette em cruzar variáveis, digamos assim, de identidade, era uma das suas maiores luzes. Laundrette apareceu também naquela charneira crucial – coletiva e individual – dos anos 80, em que num curto tempo se passou da sensação de o mundo ser um campo verde de possibilidades para a sensação de ser um campo minado. Pela sida, nem mais.

Weekend aparece quando a memória do meu coming out é já tão vaga como a memória do liceu, ou da primeira viagem ou do primeiro amor. Muito mais importante do que o coming out tem sido o… coming in, uma espécie de descoberta de outra orientações – afetivas, de tipos de relação, de pessoas concretas, de vivências reais, de sonhos e pesadelos, de modos de ser com os outros. E se a paisagem em que Weekend tem lugar é praticamente a mesma de Laundrette, por ela já passou muita coisa – da afirmação dos direitos LGBT, à crise da sida e sua transformação em outra coisa (let’s not get into it), à queda do mundo ocidental no buraco da des-solidariedade social. Coisas que se notam nos olhos e nos corpos, uma espécie de “e agora?”, de tristeza contida (ou contrariada por drogas várias), de melancolia, de mecanismos de defesa – rasgados de vez em quando pela promessa do sonho.

Mas que sentido faria tudo isto que aqui digo se se tratasse apenas de uma coincidência entre dados biográficos – a promessa e a desilusão, a juventude e a maturidade – e o tempo social e político dos filmes – a esperança e a desesperança? Pouco, se não intuísse que estas reflexões são partilhadas por muito mais gente, e se calhar independentemente da idade. E isso percebe-se porque os filmes são produtos artísticos. Eles estão lá porque nós – muitos – estamos lá. Porque dizem o que apenas intuímos. E dizem-no sem propaganda, mas antes dando a entender, a intuir. Ao fim do dia, é na estética e na poética que a teia de seda se tece: aqueles corpos normais, aquelas dúvidas normais, aquelas ânsias normais, aqueles olhares normais, aqueles apertos na garganta normais. Em torno do que liga cada um de nós aos outros e aos guiões disponíveis: a relação – a sua promessa e a sua impossibilidade e de novo, quem sabe, a sua promessa.  Muito alegre e muito belo era My Beautiful Laundrette. Muito triste, mas muito belo, muito beautiful, é Weekend.

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