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CRÓNICA, 6

JOANINHAS E MACAQUINHOS

Conheci-a no autocarro. Sentada à minha frente, falava ao telemóvel. Bem-disposta e descontraída, relatava a alguém que tinha vendido um dos macaquinhos com defeito. A uma velhota, “que aquilo é mais para crianças e os velhotes nem percebem bem como é que funciona”. Ria-se muito, sem qualquer auto-censura em relação ao que estava a dizer. O meu primeiro instinto foi embirrar. Mas, desligado o telemóvel, meteu conversa com as pessoas que iam com crianças. Perguntas carinhosas, comparações simpáticas com a sua própria filha. Uma performance curiosa noutros aspetos também: com uma forte pronúncia do Porto, esforçava-se em momentos por usar expressões e entoações próprias da burguesia lisboeta. Até o nome da sua filha estava em consonância.

Saí do autocarro pensando: que falta de brio, vender propositadamente uma coisa estragada. Mas também: algo não bate certo, ela era simpática. E mais: não parece sequer ter consciência das contradições. E logo esqueci-a. Duas semanas depois entro num local público e encontro-a vendendo macaquinhos e joaninhas a quem entra. Brinquedinhos com alguma espécie de mecanismo. Brinquedinhos cuja venda reverte para ajudar crianças com alguma doença crónica. Tomo a iniciativa: “Conheci-a num autocarro há uns quinze dias, lembra-se?”. Desfaz-se em sorrisos, que sim, claro, lembra-se muito bem, como vai a vida, vai-se andando, a fazer por ela (pela vida…). Brilhava – e o seu sorriso afastava o cinzentismo tão típico de Lisboa, de Portugal, da Crise. Enquanto vendia joaninhas e macaquinhos – umas em bom estado, outros certamente defeituosos.

Será ela tola, hipócrita, disfarçada, ingénua, de má ou boa fé? Tudo isso e nada disso. É humana. É normal. É real. Só lhe falta – a ela, a tanta gente, a mim – uma coisa: o pequeno esforço extra. O pequenino esforço extra que nos faz avançar do potencial para a concretização. Um bocadinho mais de brio. Um bocadinho mais de autocrítica. Um bocadinho mais de coerência entre o sorriso empático e a empatia com… a velhota que não percebe o mecanismo do macaquinho.

Gostei desta mulher. A sério. Mas poderia ter gostado mais – e isso faria toda a diferença.

This Post Has 2 Comments

  1. Hiroko diz:

    Na guerra dos seis dias que mcraou praticamente uma reviravolta e toda esta pole9mica no me9dio oriente israel triplicou o seu territorio. As fore7as israelenses capturaram tambe9m o sinai, as colinas de golan, a faixa de gaza e a cisjorde2nia.No fim desta guerra e em posie7e3o de fore7a para negociar os israelitas esperavam encetar negociae7f5es com os arabes para resolver o arranjo territorial, negociando os territorios e o reconhecimento.Mas essas esperane7as foram frustradas , quando em 1967, os chefes dos paedses e1rabes, reunidos em cartum, decidiram sobre os treas ne3os, ne3o e0 paz com israel, ne3o ao reconhecimento de israel, ne3o a negociae7f5es com israel, e a crene7a de que a guerra havia chegado ao fim dissipou-se logo. Ou seja a guerra chegou ao fim, de um lado com os vencidos pedindo a rendie7e3o incondicional, e do outro o vencedor esperando negociar para obter o reconhecimento e a paz. e ente3o podemos ver a queste3o da anexae7e3o ou ocupae7e3o dos territorios alem do que lhe cabia.Em 22 de novembro de 1967, o Conselho de Segurane7a das Nae7f5es Unidas adoptou unanimemente a Resolue7e3o 242, definindo as bases das negociae7f5es para um acordo de paz e1rabe-israelense. Essa resolue7e3o foi um acordo negociado entre propostas rivais. Num primeiro ponto abordado pela resolue7e3o e9 a inadmissibilidade da ocupae7e3o de territf3rio pela guerra . Algumas pessoas interpretaram isso como se Israel tivesse que se retirar de todos os territf3rios que capturou. Pelo contre1rio, a refereancia aplicava-se a uma guerra ofensiva. Caso contre1rio, a resolue7e3o incentivaria a agresse3o. Se um paeds ataca outro, e o agredido repele o ataque e ocupa territf3rio nesse processo, a primeira interpretae7e3o exigiria que o defensor devolvesse o que ocupou. Portanto, os agressores pouco teriam a perder, pois estariam assegurados contra a principal consequeancia da derrota. O objectivo final da Resolue7e3o 242, e9 que se obtenha um acordo pacedfico e aceite, mais um acordo negociado com base nos princedpios da resolue7e3o do que uma imposie7e3o sobre as partes. Essa e9 tambe9m a implicae7e3o da Resolue7e3o 338, segundo essa resolue7e3o, adoptada apf3s a Guerra de 1973, pedia que as negociae7f5es entre as partes comee7assem imediatamente e ao mesmo tempo em que o cessar-fogo. Depois mais tarde Israel devolveu todo o sinai ao egipto, o territf3rio reclamado pela jorde2nia foi devolvido e quase toda a faixa de gaza e mais de 40% da Cisjorde2nia foram entregues aos palestinos para o estabelecimentoda autoridade palestina. . Por isso a maior parte dos territf3rios conquistados na guerra defensiva ja foram entregues por Israel aos seus vizinhos e1rabes como resultado de negociae7f5es. Em declarae7e3o na assembleia geral, a OLP,rejeitando a resolue7e3o 242, afirmou que a implementae7e3o da dita resolue7e3o levare1 e0 perda de toda esperane7a para o estabelecimento de paz e segurane7a na Palestina e na regie3o do me9dio oriente , mas finalmente a OLP concordou com o facto de que as resolue7f5es 242 e 338 deveriam ser as bases para as negociae7f5es com Israel, quando assinou a declarae7e3o de princedpios em setembro de 1993.E e9 entre estes avane7os e recuos com mais ou menos prepotencia que se vive.

  2. A atitude que descreve tem um nome, que é DESONESTIDADE.
    Mas há vários tipos de desonestidade.
    E como é uma desonestidade assumida sem qualquer pudor e apoiada, também assumidamente, numa fragilidade específica do outro, julgo mesmo que a posso classificar de OBSCENA.
    Não há dúvida que a desonestidade é própria do ser humano. Mas nem todos somos desonestos.
    Posso até aceitar um comportamento normal e não de sua inteira responsabilidade.
    Mas atendendo a todos estes factores, e assumindo que já fui desonesta, não tenho qualquer dúvida de que não me seria possível sentir qualquer empatia por esta pessoa, tal como é descrita.

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