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CRÓNICA, 10

REGRESSO AO COLÉGIO

Há 25 anos que sou professor, em vários graus (e com algumas interrupções), na universidade. No início da minha carreira tinha turmas relativamente pequenas, compostas por jovens oriundos das classes média-alta e alta e de famílias com capital social e cultural relativamente alto. A universidade não estava ainda democratizada e/ou massificada. Lecionava cadeiras anuais, que permitiam um grande aprofundamento das matérias. A licenciatura – especializada, como continua a ser – durava quatro anos. Como a oferta universitária e científica começava apenas a sua expansão, os meus alunos conseguiam conceber um futuro de trabalho na área que aprendiam.

Tudo isso mudou. Com vantagens e desvantagens, sobrepondo-se as primeiras. A universidade democratizou-se e quase se massificou. Para os jovens de todas as origens sociais, e para os seus pais, passou a ser natural e expectável prosseguir o ensino universitário. Também o sistema científico se expandiu e internacionalizou, de forma quase brilhante na última década. Mas algo mudou significativamente.

Por um lado, foi-se esgotando a oferta de emprego universitário e científico para os alunos mais vocacionados para o ensino e investigação. Começou assim a surgir a questão das “saídas profissionais”. Mas, por outro lado, os alunos chegam à universidade com uma preparação mais débil, que advém de uma outra democratização a montante, a do ensino secundário. A massificação relativa da universidade criou, por sua vez, uma cultura nova, que diz a pais e alunos e a toda a sociedade que o ensino universitário serve para criar uma saída profissional. É esta cultura que eu julgo ser perniciosa. Nunca o ensino universitário serviu para isso, fora exceções profissionalizantes e técnicas como, por exemplo, a medicina.

Uma das razões principais pelas quais há este desfasamento gigantesco entre a expetativa de emprego e o curso que se tirou reside naquilo que há 25 anos era, por razões de desigualdade social, uma vantagem e é agora uma enorme desvantagem: o nível de especialização disciplinar das licenciaturas. Fazer um curso numa área científica específica não permite, obviamente e na maior parte dos casos, empregabilidade nessa área. Não pode permitir, pois não há necessidade social, em lado nenhum, de tanta gente especializada numa só disciplina. E é curiosamente contraditório com uma cultura de “ensino universitário como prolongamento do secundário” (nota-se isso nos pequenos símbolos, como os alunos que, de há 2 ou 3 anos para cá, não conseguem transitar da designação “stôr” para “professor”). Se é socialmente o prolongamento do ensino secundário então que o seja realista e assumidamente; se sempre o defendi por uma questão de conceção do que deve ser a universidade, mais o defendo agora por aquelas razões: as licenciaturas deveriam ser generalistas, do tipo college, quando muito com um sistema de major/minor. Testadíssimo alhures, comprovadamente mais eficaz.

A única grande transformação que se deu neste caos nos últimos anos foi a implementação do que agora está demonstrado ter sido a grande estupidez de Bolonha. Claro que Bolonha permitiu baixar as licenciaturas de 4 para 3 anos, as cadeiras anuais para semestrais. Mas isso não criou ensino generalista – apenas diminuiu a qualidade do ensino especializado. E obriga os alunos a “comprarem” mestrados, totalmente mercadorizados neste momento. Teoricamente o processo de Bolonha permitia que fosse aproveitado para transitar para o sistema de college. Ninguém quis. A começar pelos interesses corporativos disciplinares e pelo receio das consequências no emprego docente.

Devíamos mudar a estrutura e com ela ir mudando a cultura. Os jovens precisam de um ensino científico e humanista generalista, precisam de aprender a aprender, de ganhar curiosidade, capacidade de trabalho, sentido crítico e flexibilidade mental. Aquilo que lhes permitiria ingressarem nos mais diferentes tipos de atividades profissionais, pois deve ser competência dos empregadores treinar os seus recursos humanos para as tarefas específicas que as constantes mudanças económicas e sociais exigem – e que raramente correspondem às de “(mal) licenciado em x”.

Então, sim, os jovens teriam a flexibilidade de que tanto se fala, mas no bom sentido: adaptação à mudança, crescimento e diversificação. Não é dessa flexibilidade das skills e dos tipos de emprego e da mudança rápida das exigências dos mercados que falam os gurus do empresariado? Em vez de estado, universidades e empresariado acertarem agulhas na generalização, apostam na especialização: é que, num movimento de sentido contrário ao que critico, também se foi fazendo uma asneira simétrica, a da criação de licenciaturas, mestrados e pós-graduações hiper-especializadas, e que vão corresponder a uma procura no mercado que durará no máximo meia dúzia de anos. Assim não dá.

O que imagino? Aceitemos que Bolonha veio para ficar – licenciaturas de 3 anos com cadeiras semestrais. Faça-se disso, então, um college – com matemática e ciências, com línguas, humanidades e ciências sociais, com aprendizagem de métodos científicos e de trabalho, com mundo. Com majors e minors. Depois de entrarem no mercado de trabalho, os empregadores fariam o treino de competências específicas e os empregados procurariam o ensino pós-graduado pós-laboral (algo que já acontece) para alcançarem mais competências, mais especializadas. E quem quisesse seguir carreiras muito dependentes do ensino técnico de nível universitário, ou carreiras científicas, fá-lo-ia ao nível pós-graduado normal (e não pós-laboral) como acontece por exemplo nos EUA, quer para a medicina ou o direito, quer para as várias ciências que em Portugal se ensinam, suposta e erradamente, ao nível da licenciatura.

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