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CRÓNICA, 11

HÁ OUTRAS PALAVRAS?

Estava eu a pensar sobre este assunto quando vi no Facebook uma referência ao mesmo, salvo erro feita por José Carlos Tavares. Refiro-me à linguagem e aos símbolos usados em muitos posts e ilustrações nas redes sociais e em manifestações para criticar os autores e as autoras do regime de austeridade. Dois exemplos: numa ilustração Angela Merkel aparece vestida de nazi; noutra a clássica imagem de Abel Manta (“Povo/MFA”) é alterada de modo a termos um político enrabando (há outra palavra?) uma figura representando o povo. Mas há mais: as representações de Merkel não se ficam pela associação entre Alemanha e nazismo, deslizam também para uma linguagem sexista que raramente se aplica a homens. E as representações, gráficas ou discursivas, sobre o sexo anal como humilhação e conquista, são mais que muitas.

Há quem estranhe que isto venha da parte de quem toma posições políticas que denotam convicções “progressistas”. Em certa medida compreende-se a estranheza: esperar-se-ia do progressivismo a subscrição de valores feministas e de abertura sexual, ou de não confusão entre nacionalidade e estereotipo negativo. Mas não é assim que o mundo funciona. Por um lado porque o populismo afeta toda a gente, como bem o demonstram os momentos mais infelizes de muitas revoluções de conotação socialista. Por outro porque as questões de género e sexualidade parecem ser as mais difíceis de incorporar na agenda progressista. E, mais ainda, nos automatismos mentais, na autocensura saudável que faz com que, por exemplo, não gozemos com a morte das pessoas ou hesitemos em incluir imagens de crianças ou, ou, ou.
Apresentar a chanceler alemã como nazi, mesmo”na brincadeira”, tem dois efeitos perniciosos. O primeiro é banalizar o nazismo. O segundo é demonizar as Merkels deste mundo – que não são nazis coisa nenhuma mas algo de muito mais insinuosamente difícil de desmontar: pessoas que fazem passar por lógico, racional e de bom-senso políticas que são monstruosas. E representar a humilhação e opressão das pessoas ou povos através da imagem do enrabanço (again: há outra palavra?) significa continuar a representar o sexo anal como um ato de… humilhação e posse por parte do “ativo”, submissão por parte do “passivo”. E, num deslize semântico que não é nada difícil de perceber, é da homossexualidade e da sua feminização implícita (e vista como negativa…) que se está a falar.
Só falta mesmo, aliás, compactar as duas imagens: nazis levando no cu. Ah, mas espera: já se fez. E muito. Porque a “representação da “decadência” e da “preversão” fica exponenciada quando se juntam dois “males”. Qual o problema? É que essa justaposição faz o nazismo deslizar para a homossexualidade e a homossexualidade para o nazismo, como a justaposição alemão-nazi o faz em relação à nacionalidade e à ideologia como propensão de “caráter nacional”. 
Continuaremos todos e todas a viver o sexo como uma coisa complexa, onde fantasias, poderes, inversões, jogos, etc., fazem e farão parte. O sexo não existe sem ser, em parte, uma brincadeira em torno das regras sociais por que nos guiamos e/ou que nos são impostas, entre as quais reinam supremas as que têm a ver com o poder. Mas fazêmo-lo no tempo e no espaço limitados do próprio sexo – ou da sua imaginação. No sexo metaforizamos as contradições sociais em que vivemos. Mas não devemos trazê-las de volta para o social. Ir ao cu, levar no cu, enrabar (again and again: há outras palavras?) só pode ser “humilhação” ou “posse” no espaço-tempo da brincadeira fantasiosa mutuamente consentida pelas pessoas quando fazem sexo ou se preparam para o fazer. 
Há outras palavras? Há sim. Olha, “fazer amor” é uma possibilidade. Digo-o eu, para quem os rabos, os dos outros e o meu, não são fonte de vergonha, mas de pura beleza. Eu, que prevejo as cócegas, o mal-estar, a urticária que esta crónica possa causar. Olha, ainda bem. 

This Post Has 3 Comments

  1. Anonymous diz:

    “E lui mi faceva rinnegare questa bandiera nella sua maniera sadica, sodomizzandomi e facendomi gridare nello stesso momento: “Abbasso la rivoluzione.” (Alberto Moravia, fala de Desideria em La vita interiore). RG

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