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CRÓNICA, 12

CRIME, QUAL CRISE

Deixemos de lado os episódios de crise política – e foram tantos – no Portugal das últimas décadas. Deixemos de lado as turbulências do verão quente de 1975, a intervenção do FMI nos anos ’80, os escândalos com governantes, empresas e finança (cada qual por si ou em misturas várias), o cavaquismo, a fuga de Barroso, o patético governo Santana Lopes, enfim, o que quiserem segundo os vossos gostos e desgostos políticos. Pensemos nos momentos verdadeiramente marcantes.

Eles são três. O primeiro é a própria ditadura, cujo fim dá início ao que quero dizer por “as últimas décadas”. A vergonha de viver sob ditadura, com colonialismo e num regime moral fora dos tempos modernos continua a ser a nossa memória negativa mais marcante. O país foi condenado por aquele regime a um atraso que tem sido difícil – para não dizer impossível – ultrapassar. E condenado foi a uma visão negativa e derrotista de si próprio – não porque nos tenhamos tornado “salazaristas”, como é costume dizer-se, mas porque vivemos com aqueles tempos como o nosso pior pesadelo. Mesmo, por estranho que pareça, para os que nos autocarros e em concursos televisivos desabafam saudades salazarengas: desejam o pior na iminência do mau.

O segundo foi o “25 de Abril”. Entre aspas porque não se refere apenas à data em si, mas a todo um processo subsequente que, por sua vez, foi mais do que o PREC – foi todo um esforço de construção de democracia. Uma democracia política, mas também a descolonização, também a construção de um estado social, também o crescimento da igualdade de oportunidades, também “a Europa”, também a transformação de mentalidades. “O 25 de Abril” foi o orgulho depois da vergonha.

E o terceiro momento é este que vivemos agora. Não estamos a passar por uma mera “crise”, como já passámos por tantas (vivi vários períodos com esse epíteto usado em jornais e na boca de intervenientes políticos). Não estamos a passar por qualquer coisa que vai passar logo, se respirarmos fundo e tivermos paciência. O que está a acontecer é muito, muitíssimo, incomensuravelmente mais grave do que qualquer uma dessas crises, das inflações a intervenções anteriores do FMI, de governos patéticos a efeitos do preço de petróleos e quejandos. O que estamos a viver é a destruição sistemática da sociedade civilizada e dos seus valores tal como a e os conhecemos. Feita já não apenas – e cada vez menos sobretudo – por uma intervenção externa baseada no domínio de uma Europa politicamente fraca por um segmento das instâncias financeiras e governamentais alemãs, mas sim pelos nossos próprios governantes.

Quem nos governa neste momento padece já da volúpia própria da loucura. Da vertigem que assalta o criminoso que, depois de desferir o primeiro golpe com a faca, não consegue parar de desferir golpe atrás de golpe atrás de golpe, bem para lá da morte da vítima. Em nome de uma teorização própria de uma seita ideológica, Passos, Gaspar e Relvas, a verdadeira troika (auxiliada pela cobardia do suposto “presidente” de uma suposta “república”) propõem-se destruir o mundo tal como o conhecemos, para que tudo supostamente recomece depois de queimada a terra.

Depois da vergonha da ditadura e do orgulho da democracia, vivemos a tragédia do que chamam “crise” mas que deveria chamar-se, com uma ligeira troca de letra, crime. O terceiro momento crítico da história das últimas décadas corre o risco de ser o último, porque o que vivemos é de uma gravidade extrema, uma ditadura de um outro tipo implementada por uma democracia que estão a perverter. E seria bom deixarmos de uma vez por todas de aceitar que se culpe o passado, que nos culpem a nós, ou de culpar apenas uma força externa. Os loucos estão aqui. Estão de faca na mão. E olham para o sangue com o olhar vítreo e meio infantil de quem não distingue o bem do mal.

Post (literalmente) scriptum:  É natural que alguém comente que chamar-lhes “loucos” é desculpá-los e esquecer a racionalidade do seu projeto, esse sim atacável (embora eu ache que esse projeto não se resume ao “capitalismo”, mas a uma tendência dentro deste). Em momento algum quis torná-los “inimputáveis” e a loucura, naturalmente com aspas implícitas, é uma imagem de condenação moral. Mas não esquecer que a hiper-racionalidade (por ex, a desta ideologia da seita vinda de segmentos do BCE e do Banco Central Alemão) e a loucura têm uma fronteira muito ténue…

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