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CRÓNICA, 13

MELHOR PARA MAIS GENTE E MAIS DEPRESSA

Não consigo pensar em termos de utopias. Aliás, a palavra provoca-me urticária. Faz-me pensar em coisas dos anos sessenta, que geralmente me provocam um bocejo de enfado, ou em projetos revolucionários, homens novos e toda a espécie de transformações do mundo por decreto. Ná.

Claro que também não consigo pensar em termos de “não há nada a fazer” ou “as coisas são o que são”. Aliás, pensar isso não qualificaria sequer como pensamento, mas como preguiça mental. Não acho que o sistema em que vivemos – que dá pelo nome de capitalismo, se bem que a simples invocação da palavra já provoque toda a espécie de potenciais posicionamentos, políticos e estéticos – seja “natural”, o melhor, ou que dure para sempre. Afinal, nem sempre existiu.

Correndo o risco de parecer aborrecido e confortável e cosy, como numa imagem retirada de algum catálogo IKEA, sou dos que acham que as melhores experiências, e com os melhores resultados, de melhoria da condição humana coletiva foram feitas pelas social-democracias escandinavas. Dito isto, perguntam-se os mais revolucionários ou de inclinação radical se não se tratou apenas de uma “gestão” do capitalismo, e à custa de desigualdades não nacionais mas planetárias. Talvez. Mas que foi do melhor que fizemos, foi.

Acontece que entretanto duas coisas aconteceram – e estão relacionadas. Por um lado o dito capitalismo transformou-se. E de que maneira. Ele é global, ele é financeiro, ele é virtual, ele é deslocalizado, ele é des-nacionalizado, ele não é baseado no trabalho humano tal como o conhecemos. Por outro, o melhor da social-democracia definhou, não tendo conseguido acompanhar aquela transformação. Suicidou-se, por assim dizer, no deslumbramento da Terceira Via com as mudanças no capitalismo. À crescente incapacidade de responsabilizar e controlar os excessos e procedimentos do capital juntou-se a desistência da social-democracia em procurar soluções novas para problemas novos.

Por todo o lado all hell broke loose: o “regresso” do religioso sob formas fundamentalistas, o regresso do nacionalismo, a adesão ao capitalismo selvagem e a formas autoritárias que com ele se aliam nos países ex-socialistas, a contaminação de quase toda a gente pelo espírito do capitalismo especulativo (em quase tudo, até na vida privada), a demagogia antidemocrática aliada ao descartar da democracia pelo grande capital, e a incapacidade das esquerdas em reagir e repensar: da desistência dos partidos socialistas e social-democratas, às mil e uma tentativas intelectuais de perceber as coisas por parte da esquerda mais radical, passando por movimentos sociais que em alguns lugares mais parecem remakes de revoltas camponesas do passado.

E se a social-democracia escandinava foi o modelo mais bem sucedido de mais bem-estar para mais gente e mais depressa, a Europa enquanto projeto político de paz e integração foi das promessas mais interessantes (de novo, pouco entusiasmante para o espírito-bandeira, mas quem disse que isso é importante?) de criação do supra-nacional. Também ela, coitada, está moribunda.

Eu continuo a não crer em, nem a querer, utopias, messianismos, ou revoluções por decreto. E não tenho grande paciência, talvez por ter uma noção realista-cínica da curteza da vida humana, para processos lentos e feitos da junção de mil pedacinhos, das mudanças dos modos de vida quotidianos por iniciativa pessoal ou de pequenos grupos, por muito nobres que sejam (e são) – das trocas sem dinheiro, ao new age, aos mercados biológicos, e etc. Quero é outra vez a capacidade de olhar para o mundo tal como ele se apresenta, feito de conflitos, de contradições, de bem e de mal, com a natureza humana tal qual ela é (repitam-se aquelas palavras) e perguntar: que políticas concretas para fazer mais gente mais feliz mais depressa em todo o lado?

E não tenho dúvida de que essas políticas passam pela Política, por opções de regulação e controlo do desregulamento descontrolado do capitalismo nas últimas décadas (e aí, sim, teremos, se quiserem assim chamar-lhe, uma política anticapitalista, mas não no sentido de desejo de refundação absoluta e imediata que a expressão normalmente assume) e, no caso que nos é mais próximo (mas com consequências planetárias) pela criação de uma Europa verdadeiramente democrática, federal e simultaneamente cheia de aberturas a diversidades e multiplicidades – de identidades e de reconhecimento de desigualdade.

Mas a crise atual é o absoluto oposto disso. Não podíamos ter chegado mais baixo. E se a curva não começa a subir, a culpa será precisamente de quem não soube repensar tudo isto para agir de modo novo: quem mais defendeu a social-democracia, quem mais defendeu a Europa.

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