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CRÓNICA, 7

MURAL DA HISTÓRIA

Quando era jovenzinho havia uma coisa chamada os pen pals. Amigos por correspondência, vá. Através de dicas de amigos, ou de anúncios em revistas, tomava-se contacto com umas associações ou empresas que providenciavam o serviço. Este consistia numa lista de pessoas, por países, descrevendo os seus dados pessoais mais relevantes, os gostos e interesses, etc. Escolhíamos alguém e escrevíamos-lhe uma carta.

Assim, à mão, papel e caneta, envelope e selo e correio – que então ainda não se chamava snail mail. Esperava-se pela resposta e nela se tinha a certeza ou não de ter encontrado alguém com quem se poderia construir alguma afinidade. Trocavam-se reflexões, narrativas sobre o quotidiano, fotos, postais. Se a amizade – ou a curiosidade – crescessem, podia bem suceder que nos encontrássemos. O ou a pen pal acabava por ser uma boa desculpa – e uma boa alternativa de alojamento – para uma viagem de Interail. Por vezes entrava-se num círculo de amigos, em rede: a sugeria b, que sugeria c, e assim sucessivamente. As cartas, mas sobretudo as fotos e os postais, podiam ser afixadas em painéis de cortiça, por cima da secretária, ou numa qualquer outra parede do quarto. Muito ocasionalmente, um telefonema – um verdadeiro luxo, sobretudo em chamadas internacionais. Mas sobretudo esperava-se, esperava-se muito: pela resposta a uma carta, pela distribuição do correio, pelo eventual conhecimento face a face. O tempo era lerdo e era lourd. Às vezes, a lenta criação de uma relação à distância, o romantismo da viagem, o exotismo de estar no “estrangeiro” – e, claro, a pessoa em si, vista em carne e osso – levava a um ou outro romance de verão. Seguido de curas de saudade e nostalgia.

Estava lá tudo. Estava lá o mail, só que era snail em vez de e-. Estava lá a escrita, só que cursiva e não teclada. Estava lá a página em branco, só que página mesmo, celulosezinha, e não ecrã. Estava lá a criação de amizade a partir de nada, só que não através do add friend. Estavam lá as fotos postadas, só que num mural de cortiça. Estavam lá as redes, mas com sinapses lentas na sua criação. Estava lá o low-cost, mas era ferroviário. (Até os hostels estavam lá, mas chamavam-se albergues, os pobres. E o couch surfing era selvagem, ainda sem nome). E estavam lá os telefones, só que fixos, e sem mensagens que não fossem as anotadas por um familiar que acontecesse atender. Estava lá tudo e estava tudo preparado para receber o que havia de vir, porque tudo o que lá estava era tosco na forma e no método e na velocidade e na privacidade e na autonomia e na abragência e na exponencialidade.

Quando o tudo veio foi bom, foi uma festa. Eu gosto – afinal passei toda uma adolescência e toda uma juventude à espera de um telefone que metesse no bolso, de SMSs, de e-mails, de Internet, de blogs, de sites de encontros, de Facebook, de Skype. Não sabia que estava à espera deles, mas estava. Ai se estava. E por tudo o mais que vier continuo esperando, que será muitíssimo bem-vindo.

Mural da história: é tudo o que tenho para dizer sobre o grandesíssimo dramalhão das redes sociais.

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