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CRÓNICA, 9

A TEMPESTADE SIMBÓLICA

Provavelmente mais grave do que a crise financeira (e tanto haveria a dizer sobre a sua definição, e sobre se é crise endógena ou crise imposta…) é a crise da democracia. Uma crise que resulta da ilusão de emergência que nos é vendida. Como se certos eventos, à semelhança das catástrofes naturais ou das guerras, justificassem a suspensão dos valores de convivência e do contrato social. O que me assusta verdadeiramente é isto: como são bons parceiros de cama o discurso generalizado anti-política (e, já, anti-democracia) e o autoritarismo do atual governo e da troika.

No 5 de outubro deu-se uma conjugação de fatores que nos mostra bem onde estamos. Foi uma tempestade simbólica – a perfect storm. Desde logo porque se tratou do último feriado do 5 de outubro. Isto já em si vale volumes: acabar com a celebração, sob a forma de feriado, de uma data associada à luta democrática, é o mesmo que imaginar o fim do feriado do 25 de abril daqui a, digamos, 50 anos. Este é o primeiro ponto: o fim decretado de um símbolo democrático em nome de uma crise financeira.

O segundo ponto, símbolo e sintoma ao mesmo tempo, tem a ver com o local das celebrações. Em vez da Praça do Município, local histórico da proclamação da República, os dignitários foram encurralados no Pátio da Galé, longe do povo ou, como se diz agora, da “rua”. Símbolo do sequestro da data, sintoma do medo da rebeldia e da indignação populares.

O terceiro ponto diz respeito à senhora que irrompeu pela cerimónia adentro e gritou desesperada a situação de quem decaiu para os 200 euros mensais e aos 57 anos vive em casa do filho. Ela metonimizou as centenas de milhares de pessoas que têm saído à rua em protesto. Nem o sequestro do evento impediu que fosse o símbolo da revolta generalizada; e a sua performance fala tanto ou mais alto do que as manifestações. E não, não era uma tresloucada, muito menos “uma radical”, ou alguém promovendo um happening, ou mesmo uma “miserável”. Entrevistada hoje mesmo por uma TV, ela é a voz da normalidade mais absoluta.

Por fim, o quarto e principal ponto: a bandeira hasteada de pernas para o ar. Não por acaso este episódio tornou-se viral na sociedade portuguesa. Todos e todas tivemos a perceção clara de estarmos perante o símbolo dos símbolos nacionais atuando na performance das performances. E todos e todas percebemos isto: não fomos nós, pessoas como a mulher que protestou, pessoas que não puderam estar na Praça do Município, pessoas que nunca viveram acima das suas possibilidades, pessoas que não contraíram dívidas a juros de agiotagem terrorista, quem inverteu a ordem das coisas. Uma ordem das coisas que é feita de democracia, de contrato social igualitário, de exercício da política com sentido de estado. Uma ordem das coisas que se simboliza na verticalidade, num pedaço de pano com símbolos que não se viram de cabeça para baixo.

Não importa aqui quem fez, porque fez, aquilo. Se de propósito ou não. Se com pedido de desculpas ou não. E não sacralizo, sequer, bandeiras e hinos e patriotismos: o patriotismo ou decorre de viver numa sociedade decente ou então não interessa para nada. Como até não interessa muito para o caso falar do brilhante discurso de António Costa, da indigência patética de Cavaco Silva – ou do receio que pessoas como eu têm de que, daqui a uns 20 anos, se olhe para trás e se perceba que não saímos deste lamaçal pela infelicidade de termos a esquerda que temos e a liderança do PS que temos. Não. O que interessa é que percebemos, nesse dia de tempestade simbólica perfeita, que nos puseram de cabeça para baixo, num cruel castigo dos inocentes.

E quando o sangue sobe – ou desce – à cabeça, coisas terríveis podem acontecer. Esperemos que não sejam as anti-democráticas que tanto parecem agradar à cruel e tola gente que nos assaltou e que seduz uma parte da “rua”. Esperemos que sejam uma restauração da República.

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