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CRÓNICA, 15

LISTEN, KIDDOS

Listen, kiddos, descobri uma coisa que pode ser-vos útil. Descobri que mais difícil do que o coming out como gay é o coming out como… sénior (ai, os eufemismos). O coming out como gay é um processo de encontro consigo mesmo, libertador. O coming out como sénior é um processo de confronto consigo mesmo, constrangedor. Vou contar-vos um pequeno e banal episódio. No ginásio vou olhando para as pessoas da maneira culturalmente, hum, prescrita para o masculino (e, portanto, para o gay…). Outro dia reparei num homem que estava mesmo ao meu lado no balneário e dei por mim a reagir automaticamente no modo “ná, não interessa”. Entretanto sentei-me, desfiz o laço dos atacadores e quando levantei a cabeça tive uma epifania: olhei para o homem de novo e vi que… era igual a mim. Era igual a mim na cara, no cabelo ou lack thereof, na cor do mesmo, no corpo, até na forma de vestir, assim entre o não quero parecer um velho patético a vestir-se à jovem mas também não quero parecer um pateta velho que desistiu. Fiquei chocado. Tinha ali a prova de uma teoria que julgo estar corretíssima: a de que a nossa auto-imagem, a ideia que temos de nós mesmos nas profundas do cucuruto, para algures nos thirty-something. Ou aos 40, vá. [Aos 40, já agora, tive a minha primeira grande crise existencial: separei-me do meu companheiro de muitos anos, desde a juventude praticamente, tive o primeiro problema de saúde que levaria a muitas dores, uma operação e alguns impedimentos definitivos, e soube do cancro do meu pai, que viria a morrer dele].  Congelamos ali todo o crescimento desde a juventude; paramos ali antes de entrar na “decadência”; e paramos ali também porque chegámos ao ponto em que construímos praticamente tudo o que nos identifica, depois de mil hesitações, mil parvoíces, mil seguidismos e uns tantos desgostos, que são sempre uma boa escola. Depois continuamos a ver-nos assim, e o corpo continua a fugir-nos, a dissonância aumenta e de repente vivemos numa espécie de fantasia maluca da qual só saímos quando alguém nos confronta com a imagem que eles, os outros, têm de nós. Nunca bate a bota com a perdigota. O senhor do ginásio que o diga – ele que certamente sentiu o mesmo em relação a mim (e espero que tenha tido a sua epifania – was it good for you too?). Depois, kiddos, há mais neste coming into age (que o coming of age é mais o que acontece com o coming out como gay): no universo gay ser-se sénior ainda tende a ser pior. Reparem nisto: os sinais de apreço para com a minha modesta pessoa madura vêm sobretudo de mulheres heterossexuais. Deve ser por causa da mistura entre o meu straight acting (não conscientemente construído) e o ‘cadinho de bichice que ainda deixo transparecer e que deve ser lido como “sensibilidade”, whatever that means. Eu gosto muito dessas senhoras e agradeço-lhes muito, mas… really? Quando a gente chega ao que interessa, let me tell you, não há nada de interessante na senioridade e não acreditem nas tretas sobre a sabedoria e não sei quê. Somos sempre putos, todos e todas, queremos colo. Até a pessoa que está à beira da morte é uma criança a pedir mimo e a perguntar “porquê?” E prontoS, kiddos, esta é a pregação do dia (how senior of me…). Ah, mas para terminar numa nota upbeat, já agora, também foi aos 40 que de repente tudo recomeçou. Já dos 50 para cá não posso dizer o mesmo, a não ser que me permitem escrever tolices como a que acabam de ler. Juro que é a última vez que escrevo sobre isto (a não ser que algum pré-alzheimer me faça esquecer a promessa) e que vou meter o assunto na gaveta da cómoda que herdei da avó – o equivalente gay sénior do armário gay júnior. Fiquem bem e não se esqueçam: olhem que tudo o que forem agora congela aos 40. It better be good, it better be gay.

This Post Has 9 Comments

  1. cocegueira diz:

    Adorei o coming into age.
    Gosto sempre dos malabarismos e das moldagens (assim como quem brinca com plasticina) de palavras.
    Gostei de descobrir a palavra cucuruto, que já tinha ouvido numa forma oral e encurtada – cruto – pensando que era palavra inventada por aldeões beirões.
    Outra palavra gira que aprendi hoje algures:
    chichimeco
    s. m.
    1. Pessoa que tem cara de fome.
    2. Pessoa de pequena estatura.
    3. Pessoa que se considera ter pouca importância

    Abraços, gentil Miguel

  2. Anonymous diz:

    este sugar é todo um enigma, quando passares por ele (simbolicamente) benze-te e nunca saberás se é por ser Deus ou o Demo. mas sempre o vi como alguém muito, muito forte.

  3. eu também não, eu também peço…

    que escreva mais sobre o assunto, please… porque não é possível dizer tudo com tão pouco, e porque há por aí muita gente a precisar de ajuda para o seu “coming out sénior”…

  4. Anonymous diz:

    não, eu peço (não serei o único)

    que escreva mais sobre o assunto, bitte… porque presumo que ainda não se tenha falado muito nele quando de debates sobre direitos LGBTs, ou pelo menos devidamente… bem é a minha opinião…

    abraço

  5. Anonymous diz:

    Se me permite, não esqueça, o texto teve bastante piada. Para além disso, repare: não sou homem, nem gay, e nunca entraria num ginásio. Mas identifiquei-me com muito do que disse. Só faltou mencionar o trabalho (mas este é um tema que só interessa aos sobreviventes, suponho). Talvez já tenha ouvido, mas quando estamos num “certa idade”, de repente, somos considerados “velhos” para o trabalho – para muitos trabalhos mesmo! À beira dos 40, aprendi entretanto que não devo cair no erro em colocar a data de nascimento no CV. E por falar em decadência… que aprendizagem ridícula, não? Logo eu que me sinto uma miúda. Mas talvez deva começar a pensar nas tais madeixas para tapar os brancos que agora já saltam à vista “na bela cabeleira da miúda”, conforme o meu próprio pai me disse. E quando os pais reparam nestas coisas… Quanta força têm os 40! Quem precisa de voltar aos 20?
    Feitas as contas, entre hoje e há 20 anos atrás, continuamos a assistir à mesma precariedade no trabalho. Só o estofo é que aumentou – está mais baixo do que nunca.
    sw

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