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CRÓNICA, 16

ISTO PODIA TER SIDO UM SÍTIO DECENTE
Costumo dizer: este país tinha todas as condições para ser um lugar decente. Vejamos. Graças ao 25 de abril conseguimos coisas preciosas: voltar às fronteiras do país pequeno, sem o peso iníquo das colónias; recuperar a democracia; entrar no projeto europeu. Ficámos neste retângulo e ilhas, de fronteiras estáveis há muito tempo e um certo tipo de homogeneidade que é aquela que conta – a noção descansada de estar num sítio que não precisa de se afirmar constantemente. (A outra homogeneidade, a “étnica” ou linguística, pouco me interessa). Dez milhões de pessoas não é nada. É fácil de administrar. Ora, com dez milhões, um território pequeno, democracia, e o apoio europeu, o que costumo dizer é isto: não há desculpa para não ter feito disto um sítio mais decente.
O que é um sítio decente? Bem, um sítio onde reina a transparência democrática; onde reina o princípio da igualdade de oportunidades; onde se constrói e sustenta um estado social baseado na solidariedade; e onde se incentiva a liberdade e a criatividade nas e das pessoas. Convém dizer que avançámos muito nesse sentido: na qualidade de vida, na paz e democracia, na saúde, na qualificação das pessoas, na energia, na criação de nichos económicos virados para fora e para a criação de valor acrescentado. Temos mais recursos do que pensamos e mesmo aqueles que podem parecer desinteressantes, como o turismo, podem ser criativa e qualitativamente utilizados de outras formas. Quando alguém falava de Portugal como a possível West Coast da Europa até que nem estava a dizer disparate nenhum. Estava cá quase tudo para isso e o que faltava – por exemplo a aposta na ciência , na educação, na cultura – estava a ser feito, e basicamente bem.
Tivemos o vislumbre disto em alguns momentos, com alguns governos e, sobretudo, com a ação de algumas pessoas, empresas, universidades, meios, forças, movimentos. Em contracorrente disto tivemos sempre as forças da… reação. (Que outra expressão usar, sim, que outra?). As forças da canibalização do estado pelos interesses privados, do sistema da cunha e do compadrio, da drive do dinheiro fácil e não produtivo, do desprezo absoluto pelas desigualdades sociais, essas travaram a possibilidade que tínhamos. E essas forças podem ser designadas como “cavaquistas”, o universo da betoneira empreiteira, do diploma fácil, da especulação financeira, da trapaça. Forças que contaminaram também vastos sectores do PS, infelizmente.
[Um capanga da JSD dirige-se um dia a uma professora universitária e pergunta-lhe como teve ela o descaramento de lhe dar uma má nota naquela “porcaria de cadeira”. O mesmo capanga inepto faz a sua carreira oportunista no partido e nos governos. Pavoneia-se alcoolizado, inchado e prematuramente envelhecido no Parlamento, onde diz alarvidades. É um infeliz, mas um infeliz enriquecido sem trabalho nem mérito. É o infeliz que ganhou]
E infelizmente a reação ganhou. Não lhe interessa a educação, o conhecimento, o ambiente, a solidariedade como criadores da decência que depois permite o crescimento económico enquanto preocupação política global e não mera acumulação estéril por alguns. A contracorrente ganhou e está feliz no seu novo  projeto global, onde mistura narrativas grandiosas sobre a História nacional e a língua com os negócios com as novas oligarquias das ex-colónias. Está-se igualmente nas tintas para a Europa, para a participação ativa e crítica na renovação, bem precisa, do projeto europeu. Apenas apanha a boleia do pior que os piores setores europeus exigem: o plano da troika, exacerbado pelos executores nacionais, mais papistas que o papa, mais reacionários que a reação.
Esfrangalharam a hipótese de um local decente para 10 milhões de pessoas e para todos e todas que cá quisessem viver e contribuir com ideias, trabalho, crianças, vida. Nós sonhávamos com a West Coast, eles com um Katrina sobre New Orleans. Ganharam. They’re feasting on our souls.

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