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CRÓNICA, 18

DA BOA – E DA MÁ – EDUCAÇÃO

O líder da principal central sindical portuguesa utiliza a expressão “escurinho” para descrever um dos membros do FMI que gerem a “crise” nacional. Imediatamente levantam-se vozes censurando o racismo implícito na afirmação. Assim como outras exigindo que se perceba o contexto do discurso, ou dando mais importância à sua denúncia daqueles homens enquanto representantes do FMI. Mas a reação mais comum foi esta: ele não é racista, isto são coisas que se dizem, são coisas que todos dizemos. Reagi a isto dizendo: “Quando começa o racismo? Só quando alguém é enviado para um campo de concentração? (E até nessas situações há sempre alguém que diz só estar a cumprir ordens)”. Passadas umas horas apercebi-me de que a pergunta certa não devia ser “quando começa” mas sim “quando acaba”.

Porquê? Porque em rigor não há pessoas absolutamente não racistas. Passo a explicar. Vivemos, em termos históricos e culturais, com a categoria “raça”. Uma categoria socialmente construída, é claro, com uma história muito peculiar, que atravessa a escravatura, o colonialismo e as migrações. Desconstruímo-la, criticámo-la, demonstrámos a falácia em que assenta, fizemos pedagogias anti-racistas, e chegámos ao ponto de conseguirmos ter instituído uma censura social – além da legal – sobre as manifestações de racismo. Mas a categoria está lá, vivinha da silva, vivinha no e na Silva. À semelhança do género ou da orientação sexual – e de outras categorias – vivemos com ela, como quem vive com uma língua e não outra, e vivemos com ela tanto quando somos manifesta e ativamente racistas, como quando somos manifesta e ativamente anti-racistas. É uma chatice, mas é assim, e chama-se a isso cultura. Que nestas coisas muda, mas muda devagar.

Se nos perguntarmos quando começa o racismo, a resposta mais honesta é “esteve sempre lá”. Desde o momento em que nos socializámos no aqui e agora. Se há, como é óbvio, uma diferença significativa de “grau” entre dizer algo como o que o sindicalista disse ou assassinar alguém pela perceção da sua “raça”, não há uma verdadeira diferença de natureza. Por isso o único ato ético e político e possível ao nosso dispor, enquanto pessoas, é agir no sentido de acabar com a expressão do racismo. Quando acaba, portanto? Bem, começa a acabar no momento em que censuramos expressões como a do dirigente sindical. Desde que tenhamos feito o mesmo trabalho connosco: auto-censura e auto-contolo. Alguns acusarão isto de hipocrisia. Mas não é disso mesmo que é feita a nossa interação social? Que outra coisa é a boa educação, a boa formação, o respeito, o civismo, etc., senão isso mesmo – auto-controlo e auto-censura? Quem ataca o “politicamente correto” acusando-o de ser uma forma de hipocrisia não está a compreender que temos, isso sim, falta de mais correção política e que esta mais não é do que a transformação em ato de duas coisas: o reconhecimento das desigualdades e suas assimetrias, e a sua transformação em/pelo valor positivo de cidadania. E tudo se torna mais forte e urgente, é claro, quando as pessoas têm lugares de poder, logo mais responsabilidade.

E porque uma nota pessoal fica sempre bem: no sentido desta crónica, devo dizer que sou tão racista como qualquer outra pessoa. Precisamente por isso fiz o esforço auto-educativo de me afastar de algo que acho errado. Ao ponto de não suportar visceralmente o racismo. Pode-se dizer que a terapia comportamental resultou. Terão sido importantes a amizade com um colega guineense no liceu,  a amizade romântica com um querido amigo nigeriano  já morto, as relações várias com colegas de profissão, de ativismos, amigos de amigos, encontros de viagens, com os homens com quem dormi e que aconteceu serem negros ou mulatos, ou a intimidade com uma pessoa muito querida e importante da minha vida/família. Mas não foi sobretudo esta pedagogia do encontro e do conhecimento das pessoas concretas que me salvou, porque não é por aí. Foi mais do que tudo a convicção e a transformação da convicção em ato, sobretudo linguístico, que me levou ao meu estado atual: o nojo, sob a forma de dor de estômago, que qualquer situação racista me provoca. De tal maneira que chega a ser mais forte do que o nojo que a homofobia me provoca – talvez porque “com ela consigo eu bem”. Mas, lá está: podem ser homofóbicos à vontade, desde que não o manifestem. Ditto for racism.

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