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CRÓNICA, 19

LOGO AGORA QUE

Este texto é sobre a morte. Fujam os mais sensíveis. Não fujam os que percebem que a morte – como o amor – é o que nos faz ser o que somos, gente. Não há aqui lamúria, apenas lucidez tentada. Conheço, como tanta gente, a morte, que é sempre a dos outros. E, no entanto, não a conheço de todo. Por casualidade ela foi-me aparecendo de formas inesperadas. Não através das mortes “naturais” ou “expectáveis”, como as dos mais velhos – as mortes dos avôs e das avós foram tranquilas, “encaixaram” – nem sequer através das mortes de colegas e amigos, que sentimos como alternativas à nossa, na lotaria destas coisas, mas através das estranhas, das que não encaixam, das que nos lançam dúvidas. Mas que também, paradoxalmente, nos esclarecem.

Tudo começou com um tio e as notícias, mais ou menos escondidas para a criança que eu era então. Suicídio. Resultado de stress pós-traumático da guerra colonial. A morte entrou-me pelo ato voluntário e pela História do país. Pouco depois foi a vez de um primo, pouco mais novo do que eu, éramos nós miúdos. Um primo que era filho daquele tio. Doença incurável, daquelas que levam a família a procurar compatibilidades e a só descobrir a sua ausência. De permeio um outro primo, que não sobrevive mais do que três meses após um nascimento com deformações. Anos depois, já adulto, parecia estar treinado. Não estava. Primeiro a morte de uma criança, filha de um amigo da época, e que trouxe de volta, with a vengeance, as emoções não trabalhadas da infância. Mas sobretudo a morte do meu pai , num daqueles processos anunciados pelo cancro, processos de desgaste das forças, de desgaste das almas. Mas um processo que acabou comigo assistindo à sua morte, provavelmente algo que desejo que todas as pessoas possam experienciar. Pouco depois, outro primo – aquele primo com quem crescemos e brincámos, de idade próxima. Mesmo que nos tivessemos afastado, a estranheza de nos matarem o passado. Nem passados dois anos, uma prima, também de idade próxima, e irmã do que tinha morrido quase à nascença, suicida-se, não resistindo à pressão de uma profunda depressão. O horror puro de ir testemunhar, com a polícia, o incidente, na ausência de outras pessoas disponíveis. Verão, férias, em ambos os casos. O verão, as férias, são terríveis. Também num recente verão viria a testemunhar a morte de uma outra pessoa, acompanhando o sofrimento de alguém muito querido que teve de viver um processo que não se deseja ao pior inimigo.

Podia despreocupadamente dizer, como tantas e tantas pessoas, “A morte? Been there, seen that”. Sim, estive lá, estivemos lá, várias vezes, cedo de mais, em situações não “naturais”. Vi, vimos. Mas alguma vez estivemos mesmo, vimos mesmo? Talvez só quando se aproximar o momento, o nosso – porque, ao contrário do comum desejo de morrer inesperadamente, eu gostaria de ter algum nível de consciência da coisa. Sei que, se escaparmos à tentação da auto-aniquilação, a morte chegará sempre como uma surpresa, apanhando-nos na curva de mais um processo, de mais uma mudança, de mais uma pequenina descoberta sobre nós e os outros, de mais um sentimento amistoso e amoroso, de mais um projeto. Aparecerá como uma traição e um desapontamento, se tivermos a sorte de não estar numa situação de sofrimento profundo. Acho que quando a “vir”, vai dar-me para dizer: “Eh pá, logo agora que”. E nada do que tenha aprendido antes com ela me fará reconhecê-la. Such is life.

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