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CRÓNICA, 29

QUAL APARECEU PRIMEIRO, O OVO OU A SERPENTE?

O truque até é bem simples.

1º – Apanhar boleia da “crise”. A crise seria o resultado de décadas de modelo europeu, de estado social, de “socialismo”, e de todas as agendas progressistas e de direitos humanos.

2º – Aproveitar a incapacidade da União Europeia em se constituir em espaço político solidário para atacar a ideia de Europa em si mesma.

3º – Inverter a ordem dos factores, chamando “reacionária” à esquerda. A esquerda passaria a ser a defensora de “privilégios” económicos e sociais e exerceria sobre a sociedade um “fascismo” ético e moral nas questões de multiculturalidade, género, sexualidade, etc.

4º – Concomitantemente, apresentar as políticas “neoliberais” e as propostas fundamentalistas como progressistas. Por um lado, no campo económico e social, os maus cidadãos deixariam de viver à pala do estado e, por outro, os imorais deixariam de exercer a sua “ditadura” sobre as pessoas “normais” e “maioritárias”.

(5º, ou uma piquena contradição a resolver – Omitir a aparente contradição entre o neoliberalismo económico e o fundamentalismo moral – aliás, o segundo aparece como suposta salvação para o primeiro, mas este não é criticado porque serve de combustível ao segundo. A coisa até se resolve com a ideologia da responsabilidade pessoal pelas condições de vida, intimamente associada à ideia de um comportamento adequado à moralidade fundamentalista)

6º – Taxar de “ideológico” todo o pensamento – e políticas baseadas nele – das ciências sociais. Por exemplo, “ideologia de género”. Por exemplo, “homonazismo”. And soo n.

7º – Promover o nacionalismo, com as suas características xenofóbicas, e limpar, através do revisionismo histórico, a sua herança pesada. Também aqui a contradição entre a ideia de uma economia nacional (própria do nacionalismo) e a característica transnacional da economia que temos é omitida ou resolvida como no 5º ponto.

Isto está a alastrar pela Europa. Veja-se a Hungria, a Eslováquia, a Croácia, a França, etc. – no plano dos referendos, das alterações constitucionais, do crescimento de certos partidos, das posições face aos países do sul quanto à “crise”. Já chegou ao Parlamento Europeu, sob a forma do ataque organizado ao Relatório Estrela. E nas próximas eleições europeias corre-se o risco de um crescimento exponencial da extrema-direita da agenda “moral”, com a tolerância e beneplácito da direita sócio-económica da gestão da “crise”.

Depois de 50 anos de paz e de algumas décadas de expansão dos direitos e de uma cultura de civilização, chegou a hora do backlash. E não vai ser nada bonito. A nova “economia da crise” e o novo fundamentalismo são aliados sem o saberem ou assumirem. Nem se consegue perceber bem qual dá origem a qual. Um pouco como o ovo e a galinha. Mas neste caso trata-se mais do ovo e da serpente.

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