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CRÓNICA 30

Manuel Clemente diz que os direitos das minorias podem ser referendados e diz que as famílias constituídas por casais do mesmo sexo e crianças não são famílias e que devem ter outro nome e desigualdade legal. Não acredito que não tenha noção do insulto que está a proferir e da dimensão fascizante da proposta política que está a fazer. Oiça-se aqui. Certamente está a antecipar-se ao susto que poderá causar o resultado do inquérito que a igreja católica fez aos seus membros. Esse resultado já se vislumbra no artigo de Anselmo Borges no DN ou neste artigo no Diário Económico.

Manuel Clemente (desculpem, mas não participo dessa coisa de aceitar chamar-lhe “Dom”, até porque, aparentemente, não estamos a falar de uma máfia) disse,  por outras palavras, que a democracia é uma ditadura da maioria. (O que equivaleria, sei lá, a dizer que seria aceitável referendar, num país de maioria católica como o nosso, o direito dos protestantes à liberdade de culto). Manuel Clemente dirige uma associação de pessoas que acreditam em teses para mim absurdas sobre, por exemplo, a origem do mundo – mas eu defendo a liberdade de as pessoas acreditarem no que quiserem, e até propagandearem essa crença, desde que não afetem os direitos dos outros. Não parece ser o caso.

Manuel Clemente dirige uma associação que optou por não ser democrática internamente e por se reger por princípios de desigualdade de género e com uma preocupação desproporcionada por tudo o que tenha a ver com sexo e reprodução. Uma vez mais, their problem. O que Manuel Clemente não pode dizer, sem que o contestemos, é que os direitos das minorias à igualdade de tratamento possam ser submetidos à decisão da maioria que já dispõe dos direitos – e onde medra um expectável preconceito face à minoria, como acontece praticamente sempre nas relações maioria-minoria (aconteceria o mesmo, é sociologicamente quase certo, se a maioria fosse homossexual, se a sociedade fosse heterofóbica, se a igreja dominante fosse ferozmente contrária a uniões entre pessoas de sexo diferente e ao facto de crianças serem criadas por um pai e uma mãe).

Manuel Clemente não pode sustentar as suas ideias recorrendo a argumentos de diferença intrínseca, de natureza e até, pasme-se, do que a sua associação entende pela expressão “antropologia”, porque essa não é manifestamente a sua área (aliás, ao falar da família na entrevista, comete alguns erros antropológicos de palmatória). A sua área, o seu business, não é o da ciência, natural ou social, é o da fantasia – e não pretendo insultar ninguém, a fantasia é linda – pelo que aceitaria tranquilamente que falasse desse universo de referências. E não deste mundo.

Manuel Clemente não é obviamente imbecil, do estrito ponto de vista das capacidades intelectuais. Vir dizer, hoje e aqui, que os direitos das minorias são referendáveis (pela maioria, óbvio) não é nem lapso linguístico, nem uso distraído dos termos, mas sim um ato voluntário, propositado, calculado no seu efeito político. Saiu do domínio da crença e dos aspetos mais ou menos curiosos, consoante o ponto de vista, das suas práticas rituais e da sua teologia, para o plano da polis.

Ora, eu também estou na polis, também sou polis, como estão e são as crianças concretas cujos direitos defendemos – e não as crianças abstratas da sua teologia. Significa que, no plano da polis, o líder da associação que congrega os católicos romanos se passou para o lado totalitário e anti-democrático da comunidade. Significa que temos ali um proto-fascista – e não há outro nome. Melífluo, aparentemente preocupado com o social, eternamente sorridente – mas proto-fascista no que conta para essa definição: o que diz, o que propõe. Até quando diz, sobre gays e lésbicas, que “continuaremos a aceitá-los como pessoas”.  Sim, disse isso.

Para Manuel Clemente a raiz da palavra democracia não parece ser o “demos”, o povo, mas sim o “demo”. A não ser, claro, quando dá jeito ver a democracia não como busca da igualdade mas como ditadura da maioria. Mas vai mais longe – como, aliás, a vergonha promovida por Hugo Soares no parlamento, e claramente apoiada agora (ou antes?) por Clemente, também foi mais longe do que um ataque à democracia: diz que famílias como a minha não são famílias, que deve haver desigualdade legal. Diz às nossas crianças que elas não nos merecem como pais e mães.

Manuel Clemente, confortavelmente instalado na sua associação isenta do pagamento de milhões em impostos,  está a participar voluntária e ativamente no golpe vergonhoso que foi promovido por um setor do PSD no Parlamento, um golpe que anuncia coisas tão más e proto-fascistas para a nossa democracia como a subida da extrema-direita nas sondagens eleitorais em vários países europeus. E que tem na homofobia um dos seus principais instrumentos de demonização.

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