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CRÓNICA 37

Provavelmente a crónica mais triste que já escrevi

Receio que quando, daqui a uns anos, olharmos para trás, verifiquemos que Portugal foi o único país onde a “crise” não levou à revolta ou reconstrução do sistema político-partidário. A percentagem de intenção de voto nos partidos do governo, a tão pouco tempo de eleições, está aí para o pré-demonstrar. Porquê e como um desastre destes? Lanço algumas hipóteses, de estrutura e de conjuntura.

Entre as primeiras, basta olhar à volta. A maioria do país, e para simplificar, obtém a sua informação de correios da manhã, escritos ou televisivos; os níveis de capital cultural continuam baixíssimos; a dependência de favores e obediências várias (de pequenos patrões, famílias, políticos locais, uma administração que se tornou quase totalitária) permanecem ou reforçaram-se ou foram recuperadas; o manter-se à tona, o evitar ser vítima de um descalabro como o grego (de facto, em Portugal a crise não teve os mesmos efeitos) reforça mais ainda o sistema da não agitação das águas.

Conjunturalmente, o governo foi muitíssimo inteligente. Tal como Salazar já o havia feito, sintonizou-se com a cultura profunda de um largo segmento (não me refiro paternalistamente ao “povo”, inclui muita classe média e a sua aflição com o status). Ganhou na narrativa: que a culpa foi dos governos anteriores (a importância simbólica da figura demonizada de Sócrates tem a ver com isto); que este governo veio salvar a situação fazendo da austeridade não uma exceção mas um regresso à moralidade normal do país profundo; apresentou Passos Coelho como o rapaz sem qualidades, sereno e obediente à tutela dos estrangeiros, vistos não como os opressores mas como aqueles que sabem, os senhores; consolidou a narrativa com a personagem de Albuquerque, a austera senhora que põe em ordem as contas domésticas, da família-nação; e, pelo caminho, instila o medo e apela ao “fiquemos quietos que há de passar” (uma velha, se bem que terrível, sabedoria de um país velho).

Podem as sondagens estar todas erradas ou mal feitas. Mas a verdade é que se vê um PSD resiliente (Ah!), um PS que pouco descola, um PC estático, e nem sequer um efeito notável de novidade no espectro – seja pelo lado a la Syriza-Podemos, seja pelo lado a la populismo de direita. Mas, talvez pior que tudo, a “tristeza histórica” de constatar a resiliência do Portugal “profundo” – não uma qualquer psicologia cultural, mas uma sociologia concreta – e o insucesso do que em tempos nos pareceu ser a mudança social e cultural da democracia e do desenvolvimento.

E destruído o estado social e o élan emocional das pessoas, nem sei se alguma coisa será recuperável. A Grécia e a Espanha recuperarão, a crise terá sido para elas um frenesim negativo. Mas o processo da nossa destruição terá sido o mais eficaz, o que se faz no resignado consolo silencioso da auto-punição.

Esta é provavelmente (eu que me considero otimista e detesto queixumes e fatalismos) a crónica mais triste que já escrevi….

 

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