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CRÓNICA 39

UMA BOA NÓVOA

Nunca aderi – estética e afetivamente – à cena “republicana” e “professoral-universitária”. E perdi os laços – de novo, estéticos e afetivos – com as referências da revolução (apesar de reconhecer a qualidade, por exemplo Zeca Afonso aborrece-me e entristece-me). Isto não significa que não faça escolhas racionais, políticas, que tendencialmente levam a apoiar quem recorre a uma daquelas referências simbólicas, ou ambas.

(Sou um bocadinho cartesiano, sim, so what? Em última instância, na política opto pela escolha racional em detrimento da afetiva, mas preferiria que as duas coincidissem…)

É o que acontece com o lançamento da candidatura de Sampaio da Nóvoa. A atitude e as afirmações políticas são certamente as corretas – e aquelas que apoiarei. Para mais, tem a vantagem de poder captar o PS e, assim, ter uma trajetória vitoriosa, nem que seja à segunda volta.

Tenho pena que não tenha havido uma candidata na mesma área. A simples mudança do masculino para o feminino faria maravilhas na simbólica da nossa política nacional – e das nossas auto-perceções enquanto comunidade. Mas não surgiu nenhuma de jeito e, sobretudo, uma certa inércia de género na nossa esquerda não fez nada por isso. Também uma figura como Carvalho da Silva, pelas origens trabalhadoras e sindicais, teria tido um efeito simbólico importante. A nossa política – a “republicana-professoral” e a “revolucionária de abril” – são excessivamente masculinas e elitistas.

Mas, recordo, estou a contrapor questões simbólicas, estéticas e afetivas minhas, a questões de conteúdo político explícito. O que importa, numa decisão política racional, é que, por um lado, haja condições de vitória da esquerda e, por outro, que haja conteúdos políticos que possam ser assinados por baixo. Nisto, é importante deslocar a atenção do fastidioso tema do “arco da governação” para o mais promissor “arco constitucional”. O primeiro prende o PS à cedência ultraliberal contemporânea. O segundo remete a direita para o campo anticonstitucional e salva o PS para uma esquerda mais alargada.

Creio que só a candidatura de Sampaio da Nóvoa (mais do que a pessoa, ele ou outra, importa a candidatura, as ideias coletivas, os apoios e a mobilização) reúne estas condições. Mesmo que simbolicamente – e o PR é a figura simbólica por excelência da comunidade – a retórica e a estética tenham recorrido, no lançamento, ao “republicanismo professoral” e à “poética da canção de protesto de abril”. Mas, se calhar, isto é uma boa lição: revelará que ainda não temos uma alternativa, uma cultura política própria já do século 21? E revelará que o que está em jogo é combater a crescente tendência neo-salazarista da direita?

Posto isto, esta candidatura é uma boa nóvoa.

This Post Has 2 Comments

  1. maria eduarda guimaraes diz:

    Exmo. Sr. Professor

    Um juízo claro e bem fundamentado, no qual revejo totalmente a minha posição. Gostei imenso do seu conceito de arco constitucional. Uma ideia a circular tão cedo quanto possível. Naturalmente, urge combater em todos os locais, este medonho monstro da tendência neo-salazarista. Precisamos com muita urgência de estudos sobre o fascismo português, a guerra colonial, etc., precisamos do debate académico e público, para começarmos a varrer o que tem estado debaixo deste tapete colectivo.

    Muito Obrigado, Sr. Professor. Mª Eduarda Guimarães

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