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CRÓNICA, 40

DE ELITISTA A DEMOCRÁTICA E A COMERCIAL

Dei hoje a última aula à “turma da noite”. A universidade decidiu acabar com o turno noturno por não ser rentável.

Há quase 30 anos comecei a lecionar no ISCTE. A rotina da divisão da mesma cadeira em turno da tarde e turno da noite começou então. E era riquíssima. Se os alunos da tarde eram tendencialmente mais jovens e oriundos da classe média e mesmo letrada (embora tal tenha vindo a diversificar-se com a democratização do acesso à universidade), os alunos da noite eram tendencialmente mais velhos e oriundos de histórias familiares em que eles eram certamente os primeiros a atingir o ensino superior.

Jovem de vinte e tantos anos, tinha à minha frente pessoas da idade dos meus pais e mais velhas; pessoas com experiência de vida; pessoas que saíam de um dia de trabalho para uma noite de estudo, descoberta e reflexão; cansadas mas persistentes; pessoas que se reconheciam nas histórias que eu contava do meu trabalho de campo conducente à tese de doutoramento, numa aldeia portuguesa. Passados os anos, começámos a ser equivalentes na idade, e a trocar experiências da nossa vivência do mundo, se bem que a partir de lugares muito diferentes. E recentemente, muitos dos alunos já eram mais novos do que eu.

Os primeiros pertenciam à leva de pessoas que, sobretudo na administração pública, beneficiavam da possibilidade de estudar e, com isso, progredir nas suas carreiras. As segundas já sentiram mais dificuldade em conciliar trabalho e estudo e as últimas já pertenciam largamente ao universo do trabalho precário. Aliás, a principal razão pela qual perdemos alunos – e rendibilidade… – não foi tanto a disciplina concreta e a nova hegemonia da empregabilidade (um grande mito, se é que há algum, mas esse é outro assunto), mas as propinas, o fim do incentivo ao estudo (que deixou de contar para a progressão nas carreiras), as dificuldades crescentes colocadas pelos empregadores à flexibilidade horária, e o império dos call centers e a sua guerra surda contra a possibilidade da gestão racional do tempo e das atividades pelas pessoas.

É um mundo que desaparece. Uma função social nobre que desaparece. Uma estratégia de re-analfabetização e regresso da desigualdade e da hierarquia que é implementada. Ao longo de quase 30 anos vi dezenas e dezenas de cabeças descobrirem mundos, empoderarem-se, tornarem-se mais cultas e mais críticas, apesar das enormes dificuldades criadas pela ausência de capital cultural acumulado pelos próprios ou pelas famílias de origem. E vi dezenas e dezenas de pessoas que não, não se tornaram antropólogas (nem tal era necessário, não precisamos que os cursos não técnicos, ao contrário de medicina, por exemplo, criem profissionais do que quer que seja, precisamos que criem pessoas mais cultas e mais capazes de aprender, pensar e adaptar-se) mas tornaram-se mais ágeis nas suas vidas e trabalhos, ganharam novas skills indiretas, até descobriram novas funções e capacidades nos seus empregos, empresas e locais da função pública.Mas, sobretudo, acho, tornaram-se mais cidadãs e a sociedade em geral ganhou mais gente mais letrada. Há lá bem melhor do que esse? Agora acabou.

Vi, em 30 anos, a universidade ainda elitista, depois vi a universidade democratizar-se e a receber a comunidade (de que agora tanto se fala, mas na realidade é às empresas, e só algumas, que se refere essa retórica…), e agora vi a universidade transformada em prestadora de serviços a clientes – e expulsadora dos maus clientes, em conivência com processos mais amplos no mundo do trabalho e dos direitos. Um exemplo concreto da nossa transição, da nossa democracia e, por fim, daquilo que nos quiseram impingir como “crise” mas que é, na realidade, um enorme truque de prestidigitação social.

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