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CRÓNICA 42

A MARGEM NO CENTRO

Muitas vezes são as “margens” que iluminam o “centro”*. As questões de género e sexualidade são vistas pelo senso comum político como específicas e secundárias. Mas não são. São mesmo centrais, pelo que mobilizam, no pensamento e nos afetos, sobre o que é a vida – o corpo, a identidade, o amor, o sexo, os filhos, a família… O senso comum tenta despachá-las como “fracturantes”, quando na realidade elas estão no âmago da discussão sobre que comunidade queremos, sobre a liberdade, a autonomia, a dignidade, os direitos, a diversidade. Espanta-me muito, por exemplo, que a campanha lance para segundo plano, ou mesmo terceiro, o grande escândalo democrático que foi o episódio do chumbo da coadoção em casais do mesmo sexo; ou a regressão no acesso autónomo e consciente ao aborto.

Mas, ontem, no debate com candidatos e candidatas, promovido pela ILGA Portugal, ficou claro o que estou a dizer. Ali, a linha divisória passa clarissimamente entre o PSD-CDS e o PS. À esquerda do PS, com este incluído, uma visão de total subscrição da agenda igualitária. No PSD-CDS, a sua recusa taxativa: omissão no programa, e o registo do comportamento vergonhoso nesta legislatura. É daquelas áreas que ajuda a colocar em causa as cassetes sobre “arco da governação”, “bloco central” ou “políticas de direita”.

Madurão como sou, assisti à evolução disto tudo. Os tempos em que só o PSR (um dos constituintes do BE) aparecia em coisas lgbt e subscrevia reivindicações; seguido do próprio BE; depois do PS, que passou de não aparecer a aparecer e pouco dizer, a dizer as coisas pela metade e, depois, a subscrevê-las todas, como o faz agora; depois, ainda, novos movimentos, como o Livre/Tempo de Avançar ou o PAN; na CDU, os Verdes fizeram o percurso e apareceram e propuseram bem cedo, mas mais tempo demorou o PCP, que ainda se encontra hesitante na questão da PMA (com a incrível noção de que seria um método alternativo de conceção para solteiras e casais de mulheres, como se se pudesse conceber que estas mulheres pudessem passar por heterossexualidade obrigatória, e tornando assim difícil saber como se comportará nisso a CDU, com dois componentes com posições diferentes); por fim, o PSD começou a aparecer, embora nada tenha a propor.

Ou seja, um aspeto supostamente “marginal” do nosso debate político e societal é, afinal, uma locomotiva de mudança e um belíssimo aferidor das ideologias, visões do mundo, e projetos políticos. Porque o que está em causa são os direitos de minorias, justamente, a sua garantia ou não é central para a autoidentificação da maioria como decente.

*esta imagem é inspirada numa do trabalho do meu colega João Pina-Cabral

?#?VotaEVotaContraADireita?

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