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CRÓNICA 43

AOS MEUS QUERIDOS CROMOS ARMARIADOS E SELF-HATING

Há o caso clássico do gay armariado que quer manter as aparências perante as velhas tias católicas e subscreve imaginários aristocráticos e monárquicos, junto com o voto, quando não a militância, na direita mais conservadora. Há o caso clássico do gay armariado, homem casado com uma mulher e que, sem transparência ou consenso relacional, se dedica ao sexo recreativo com outros homens, desde que simbolicamente estes se definam também como casados (com mulheres, subentende-se…). Há o caso clássico do gay, mesmo que assumido, que é contra as reivindicações do movimento LGBT porque acha que isto são questões de privacidade – ou o que é contra o direito à adoção por casais do mesmo sexo porque acha que as crianças precisam dum pai com pénis e duma mãe com vagina. Há o caso clássico do gay machista que detesta mulheres, sobretudo lésbicas – e mais ainda se forem “masculinas”; ou o que não hesita em ser racista, xenófobo, ou classista, porque nem vislumbra as ligações entre as discriminações. E há, claro, uma realidade tristemente feita do cruzamento de todos estas clássicos. E mais ainda.

Por exemplo – e vou-me usar como cobaia: o gay armariado que vigia e pune as tergiversações do gay assumido, sobretudo se o estatuto deste for percecionado a partir de visões hierárquicas da sociedade. Explico. Em certos momentos ou períodos, tenho um perfil em aplicações e sites de engate. Apareço com a foto da minha cara, com o nome “Miguel” e não tenho qualquer problema com isso. Sei perfeitamente que algumas pessoas (curiosa ou surpreendentemente, consoante os casos, nem sempre) me reconhecerão como figura semi-pública. Não me importa. Não tenho nada a esconder, não tenho nada a explicar sobre a minha vida sexual ou conjugal (assumir-me como gay é uma questão de outro nível, identitário e político), tenho ideias claras (e uma biografia clara…) sobre o que são, e como se conjugam ou não e quando, a paixão, o amor, a relação, e o sexo; e não tenho uma visão hierárquica ou feita de tabus em relação às figuras públicas ou à ocupação de cargos públicos – onde o que conta deve ser a ética e a competência.

Posto isto, não é que às vezes me aparecem, nas ditas apps e sites, pessoas literalmente surpreendidas por me verem ali? Há vários tipos de “surpreendidos”, todos cromos detestáveis. Aquele que não esperaria ver-me, pois construiu sobre mim uma imagem assexuada, de pureza intelectual e militante. Sim, assustador. Aquele que pensa ter descoberto um pecadilho meu e goza com isso, a partir de um discurso que nada tem de diferente do pior moralismo – e que diz muito sobre o self-hate. E até aquele que decide – sobretudo como vingança por alguma recusa minha em me enrolar com ele – ameaçar com uma suposta denúncia ou escândalo, sempre envolvendo essa procuradoria-geral da merda, o “Correio da Manhã”. Aconteceu-me um casozinho destes ontem (o gatilho para este textozinho), enquanto lia tranquilamente as passagens maravilhosas de Hannah Arendt em “As Origens do Totalitarismo” (na parte sobre Antissemitismo), onde analisa o caso Dreyfus e Marcel Proust a partir do drama conjunto de judeus e homossexuais quando construídos como viciosos e fascinantes pela cultura de salão da época. O rapaz, claro, não tinha cara nem nome, à boa maneira do terror fascista. E não conseguia sequer conceber que nem as piores coisas (na mente dele, claro) me poderiam afetar. Uma qualquer “denúncia” de homossexualidade, de engate ou, mesmo, de preferências sexuais, conversas ou imagens, seria sempre, em si, o lado para o qual eu dormiria melhor, pela simples razão de que NADA me envergonha, garantida que está a consensualidade entre pessoas em idade legal, e a crença na absoluta normalidade do sexo. Enfurecer-me-ia, sim, a quebra da privacidade, a privacidade do contrato implícito na comunicação, coisa que escapa, obviamente, ao moral-fascista.

Tanto gay, hoje, vítima do pior efeito da homofobia, que é a sua internalização num moralismo de pacotilha que escolhe como alvo não o homofóbico mas justamente o gay assumido, mais ainda se no espaço público e em função do combate à homofobia…

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