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CRÓNICA 44

Antropocêntrico?

Há dias fiz um daqueles questionários/testes sobre orientação política. Achei curioso que, além das categorias habituais (economia, peso do estado, “costumes”) aparecesse também uma relacionada com maior ou menor antropocentrismo – sobre questões ambientais em geral, é certo, mas com especificação dos direitos dos animais. Estes entraram definitivamente na agenda política (em Portugal, desde logo, com a eleição de um deputado pelo PAN) e da cultura, com movimentos sociais e produção académica na filosofia e nas ciências sociais.

Não tenho nenhuma posição “contra” a agenda dos direitos dos animais. Mas também não aderi – no sentido identitário – a ela. Digamos que fui apanhado na curva, em termos geracionais, e ela surge-me como algo de novo, sobre a qual preciso de pensar. Talvez à semelhança da geração anterior à minha, de pessoas de esquerda que precisaram – pressionadas – de pensar o feminismo ou os direitos LGBT antes de os interiorizarem como válidos.

Essa reflexão que preciso de fazer não assenta, portanto, num impulso emocional e afetivo imediato. Ou seja, reconheço que não pertenço à cultura, ao universo emocional, de sentidos e de reivindicação, dos animalistas. Mas quero fazer o esforço e tenho quase a certeza que virei a incorporar, na minha visão do mundo, a importância dos direitos dos animais. Mas tenho o meu próprio caminho a percorrer. E ele começa justamente pela dúvida em relação à questão “antropocêntrica”.

Em primeiro lugar, os direitos do animais não são, obviamente, uma reivindicação dos animais não-humanos. Digo isto sem ironia ou provocação. Eles são direitos reivindicados por humanos a outros humanos. Nisso, a natureza ou espécie da questão é substancialmente diferente da de humanos (mulheres, LGBT, negros, trabalhadores) reivindicando direitos a outros humanos. Os direitos humanos são intrinsecamente “antropo”. Os direitos dos animais são, paradoxalmente, também “antropo”: imaginados e reivindicados por humanos. Repito: isso não é um problema, até revela nobreza. Mas é outra coisa.

Em segundo lugar, e se deixarmos de lado filosofias de vida como o veganismo, a adesão geral, “na cultura”, aos direitos dos animais, faz-se através de hierarquias simbólicas de proximidade, semelhança e afeto. Os espoletadores da emoção política são os animais de companhia, os outros primatas, e os mamíferos em geral. Quanto mais longe destas categorias, menos o impulso afetivo imediato acontece. A não ser, de novo, em relação ao animal selvagem por excelência, em vias de extinção, distante e em paisagens que já haviam sido romantizadas para outras questões.

(Um parênteses, a propósito do parágrafo anterior: as semelhanças entre a discussão, no passado, dos direitos dos animais e os direitos ou humanidade dos “primitivos” e “selvagens” – ou dos escravos – são evidentes. Recursos retóricos semelhantes, lugares de imaginação do outro semelhantes, estratégias de aproximação e semelhança parecidas. Mas há algo de perturbador nisso, dada a acima referida diferença de natureza e espécie. Não se trata só da questão da agência – a partir de certo momento foram os “primitivos” e os “escravos” que, enquanto humanos com agência, reivindicaram a pertença ao conceito geral de humanidade. Trata-se também de ver como a crítica pós-moderna ao conceito de humanidade como ocidental pode estar na base de analogias entre questões de desigualdade entre culturas e desigualdade entre humanos e animais não-humanos).

Em suma: questiono-me se um bom e crítico exemplo de antropocentrismo não será justamente a defesa dos direitos dos animais. Note-se que isso não impede que, confrontado com a escolha entre recusar os direitos dos animais ou aceitá-los, não hesito em aceitá-los. E subscrevê-los. O que não consigo é dar o salto de analogia humanizante – antropocêntrico – que entrevejo no fenómeno. Se me disserem que, para lá, naturalmente e bem, da questão do “humane treatment”, do que se trata é de uma forma mais avançada de pensar criticamente o estado do ambiente e da economia (a cadeia alimentar, os efeitos ecológicos, etc), eu incorporo a questão no meu pensamento político. Mas se me pedirem, como acontece na versão académica e teórica desta agenda, para não pensar antropocentricamente, recuso – não por achar feio ou moralmente problemático, mas por achar logicamente impossível, a não ser que enverede pelo pensamento místico ou religioso.

E dispenso, obviamente, a “acusação” de antropocentrismo como um dos componentes de “conservadorismo” numa escala de valores políticos.

 

This Post Has 2 Comments

  1. Nádia diz:

    É evidente que a demanda pelos direitos dos animais é antropocêntrica, mas tal não retira valor ao empreendimento. Afinal, o conceito de direitos é nosso, mas é também por “nossa” causa que se impõe a necessidade de proteger os animais não-humanos. No mundo não-humano não existem direitos, mas também não existe a brutalidade e o horror que infligimos sobre as outras espécies.

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