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CRÓNICA 45

Bachi Bazi

É muito comum ouvir falar elogiosamente da “homossexualidade na Grécia Antiga” a quem dá os primeiros passos na (auto)aceitação da homossexualidade – e mesmo a certo tipo de jornalismo ou de academia menos preparados. O tema faz-me sempre comichão. Por três razões.

Em primeiro lugar, porque sabemos que a suposta aceitação greco-antiga se limitava às relações entre homens mais velhos e mais poderosos, por um lado, e jovens rapazes menos poderosos, por outro. Sexo ou relação entre dois homens maduros era escandaloso. Deveriam estar casados – com mulheres. (E, já agora, das mulheres pouco se fala, claro, para lá das elucubrações em torno de Lesbos).

Em segundo lugar, porque o princípio “ativo”/”passivo” no sexo revela uma analogia entre hetero e homossexualidade, em que o masculino é visto como dominando, nem que seja simbolicamente, feminilizando um parceiro e masculinizando outro – e, o mais importante, fazendo disso uma hierarquia de prestígio (contida nas próprias expressões “feminilizar” ou “masculinizar”).

Em terceiro lugar, porque o recurso à “Grécia Antiga” (assim, uma grande generalização), além da ideia de que o antigo legitima o contemporâneo, serve para legitimar algo com base na narrativa etnocêntrica, e muito mitificada, das “origens da civilização europeia”. O sexo como a democracia, ora pois.

Acontece que há dias vi um documentário sobre a instituição “bachi bazi” no Afeganistão. Hoje. Trata-se de um sistema sexual, de uma economia-política do sexo, assente na servidão de rapazes imberbes, alugados ou comprados a famílias pobres por indivíduos poderosos ou ricos (associados sobretudo aos espólios de guerra e ao tráfico). Os rapazes são treinados na arte de dança feminina, dão espetáculos envergando roupa feminina para grupos de homens que não têm acesso a mulheres (no caso de serem exclusivamente heterossexuais…) e mantêm as suas trancadas em casa. O sexo entre os patrões/patronos e os rapazes é comum.

O padrão da homossexualidade instituída entre homens poderosos e mais velhos, “masculinos”, e homens dependentes mais novos, “femininos”, o padrão “ativo”/”passivo”, a assimetria de género com subalternização das mulheres, e a heterossexualidade normativa como mecanismo para a gestão do casamento e da transmissão da linhagem e da propriedade são comuns em muitas sociedades, particularmente no contínuo Mediterrâneo – Médio Oriente – Ásia Central (e havia/há variantes africanas). Foram-no de forma aberta e instituída em tempos, são-no de forma encapotada em virtude da globalização dos direitos humanos, e são-no de forma “interiorizada” nas relações entre muitas pessoas – e na apreciação pública de homossexualidades legítimas e ilegítimas, no Afeganistão ou no Cavaquistão, perdão, em Portugal.

Imaginei o espetador médio do documentário. Provavelmente – e com toda a razão, tendo-me acontecido o mesmo – chocado com a barbaridade do fenómeno, sobretudo através do atual filtro da “pedofilia”. Mas imaginei-o também atribuindo a barbaridade a “eles”, os afegãos (certamente confundidos com “árabes”, ou como metonímia de “muçulmano”, mas sempre devidamente metidos numa visão orientalista). Aí divergimos. O espetador médio é capaz de ficar chocado com o exemplo afegão e exigir uma intervenção militar-humanitária, ao mesmo tempo que é capaz de fazer uma vénia à homossexualidade da “Grécia Antiga” e nunca questionar o duplo padrão referido no parágrafo acima, hoje e aqui, naturalizando-o como parte da “natureza masculina”. Uma questão de grau de gravidade, apesar de tudo? Claro. Mas…

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