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CRÓNICA 46

Rir e não rir no Rio

Não sou nada turista. Quando visito uma cidade prefiro estar com pessoas locais e seguir-lhes a vida banal. Mesmo quando tenho de ficar em hotel, tento fazê-lo. Invento uma rotina – a fingir, claro: ruas que fico a conhecer, um local para café, comprar os jornais locais (se a língua o permitir), entrar em supermercados e ver os produtos e os preços. Em vez de visitar os locais turísticos, posso passar horas num banco de jardim a ler um livro – o que trago de Lisboa, nem sequer necessariamente de autores locais. Se vos disser que estou no Rio e nunca fui ao Corcovado vão achar-me estranho. Mas é assim – se bem que, se me arrastarem, lá irei, como fui inesperadamente à Acrópole de Atenas.

Mas o Brasil é outra coisa. Desde que aqui vivi – se bem que no sul da Bahia – que sei que o Brasil não entra bem na categoria de “país estrangeiro a visitar”. Quer dizer, sim. E não. Aqui somos sempre convocados para a semelhança, a identificação e a História comum – boa e má. E somos sempre surpreendidos pela diferença que a semelhança esconde. Um outro que é um mesmo, mas um mesmo que é mesmo outro. Foi a experiência no Brasil e o confronto com a História que levou às relações sociais e raciais que hoje aqui existem, que me levou a pensar o colonialismo português e as representações ideológicas do mesmo em Portugal, bem como as representações ideológicas no Brasil sobre a sua identidade nacional. Discursos anti-coloniais genéricos tão-pouco servem como alternativa àquelas ideologias do lusotropicalismo, da cordialidade ou do não-racismo. Porque Portugal foi um colonizador “de segunda” e o Brasil foi uma colónia – melhor, um Centro colonial – de “primeira”. Isto para simplificar, mas para dizer que precisamos de análises mais sofisticadas e específicas – específicas, não sobre supostas excecionalidades. Mas sobre isso já muitos e muitas, incluindo eu, escrevemos.

“Mas para dizer o seguinte”: tanto do que se vê aqui vê-se também em Portugal, só que não se vê…. Diferença de grau, mais do que de natureza (simplificando, de novo). Relato do dia, do não-turista à procura da usa rotina fantasiosa de bairro. Desci a Rua do Catete de manhã, pelas 10h, para comprar os jornais, que já sabia manipularem politicamente a crise da detenção de Lula. Subitamente, uma loja Bahia é assaltada. A polícia intervém. O assaltante é morto. O corpo no asfalto, os transeuntes parando para ver, as sirenes. Afasto-me, não por medo, mas tal como não paro para ver acidentes na estrada. Questão de princípio. E, neste caso, particularmente enjoado. Quando regresso umas duas horas depois, o corpo ainda lá está. Descoberto. Os mirones também. E a polícia. Bem sei que é preciso esperar pela medicina legal. Mas o que impede que o corpo seja coberto? Escondido? De alguma forma ocultado do espetáculo? Creio que nada, a não ser uma inclinação – profunda, banalizada, não-questionada, não-propositada mas que está lá, como instrumento de um sistema – para dizer mostrando: “Eis o bandido. Eis o bandido morto”. (Ou o escravo fugido. Ou o judeu secreto. Ou o cigano ladrão. Ou).

Consigo pensar em tantas analogias disto em Portugal. Mais escondidas pelo nosso apartheid geográfico, sim. Pela menor intensidade e grau de eventos semelhantes, sim. Mas. Há anos publiquei num livro meu (Outros Destinos: Ensaios de Antropologia e Cidadania) um texto sobre as páginas de polícia num jornal de Ilhéus, Bahia. Mostravam sempre a cara dos bandidos presos. Atrás de grades. Ou mortos. Nenhuma privacidade. Páginas imediatamente anteriores às das colunas sociais – onde as personagens desejam a não privacidade. Não vemos o primeiro caso em Portugal? Não (se bem que certos jornais e TVs queiram para aí caminhar). E devemos estar gratos por isso. Mas ouvimos isso em Portugal, na linguagem e nos discursos. Juntos, Portugal e Brasil, as suas elites (iguais, aliadas ou com a mesma origem, ramos desavindos de famílias, no período colonial, na independência ou no pós-colonial) construíram um mundo em que há um Marginal que é simultaneamente carrasco e vítima, um figurante necessário para o espetáculo da ordem e da lei da amenidade burguesa e branca. Exposto pela linguagem, pela imagem, ou na via pública, como alvo a abater ou abatido ainda antes de o ter sido.

As pessoas seguem a sua vida, a sua rotina. Olham para o corpo, inclusive as crianças, e seguem a sua vida. É assim em todo o mundo. As mesmas pessoas que, aqui no Rio,  adoramos e bem pelo seu prazer de viver, a sua alegria e hospitalidade. Sim, é assim, rir e não rir, no Rio. Ou em Lisboa. Ou em Telavive, ou wm Nova Iorque (apenas para traçar as minhas cartografias). E não são só “eles”, os outros. Sou eu também, à minha escala e nas minhas coisas. Mas é por isso que pedimos que “o Estado” faça pelo menos o seu teatro com outra dramaturgia, outra encenação: que tape o corpo, caramba, que tape o cadáver e, assim, diga, “pelo menos respeitamos o preso, o abatido, o bandido e, com isso, queremos dizer que ainda temos uma chance de vir a sair do sistema que os nossos antepassados criaram e que andamos iniquamente a reproduzir com a desigualdade”.

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