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CRÓNICA 47

O PAÍS DOS MEUS PAIS

O meu país não é feito só de portugueses “de gema”. Desde logo porque eles são, na realidade (e como em todo o mundo), uma belíssima sobreposição de camadas, misturando gente mediterrânica com celtas e visigodos, descendentes de berberes e árabes muçulmanos expulsos, de judeus expulsos ou convertidos, de espanhóis, franceses e tantos outros europeus, de escravos africanos “branqueados” na antiga metrópole colonial, “misteriosamente” desaparecidos das genealogias familiares, de ciganos chegados no século XV e aqui estabelecidos como gente da terra…. O meu país é também feito da histórica migração cabo-verdiana, que construiu o país do desenvolvimentismo do fim da ditadura e que continua a navegar entre as ilhas e a Europa. E de angolanos, guineenses, moçambicanos, são-tomenses. De goeses católicos que transitaram pelo império, de indianos hindus que se reúnem no templo de Telheiras, de muçulmanos ismaelitas de remota origem paquistanesa e próxima origem moçambicana, todos estabelecidos nas mais diversas atividades, da administração pública aos negócios, passando pelo comércio ou profissões liberais. De descendentes de judeus que reconstroem a sua narrativa, desde as várias Belmontes, e se encontram com os descendentes dos judeus retornados de Marrocos no século XIX e XX ou os que ficaram na fuga ao nazismo ou chegaram das mais diferentes partes do mundo depois. De comerciantes do Bangladesh, que nos oferecem as lojas de conveniência, de chineses que disseminaram o comércio low-cost, de paquistaneses que abriram restaurantes indianos e de nepaleses que os tomaram nas mãos depois, e dos filhos e filhas de todos que esperamos poderem descobrir outros percursos. De ucranianos e romenos e moldavos que revigoraram a economia um pouco por todo o lado e se estabeleceram no encantamento com clima, costumes e democracia, mesmo trabalhando abaixo das suas qualificações. De brasileiros, do Nordeste ao Paraná, fazendo com que hoje seja impossível passar-se um dia sem que se tenha ouvido o sotaque brasileiro nalguma loja, esquina, restaurante, serviço, aula. E, sim, de britânicos, da velha comunidade ou das mais recentes, de holandeses e alemães espalhando alternativismos pelo sul fora, de russos e chineses com vistos gold, de ciganos romenos vivendo de esmola, de gente mais ou menos traficada, de margens discriminadas, da trabalhadora do sexo nigeriana à travesti brasileira. De estudantes Erasmus em constante circulação, de jovens criadores, cientistas, viajantes, experimentadores de toda a Europa. De gente que aqui procura refúgio, da guerra, da perseguição política, da homofobia. E de portugueses que emigraram e emigram, que colonizaram ou foram semi-colonizados em colónias de outros impérios, que foram e retornaram ou vieram pela “primeira vez”.

O país que eu quero não é o país da “integração” – essa expressão que faz lembrar a “assimilação” colonial. Não é o país do “branqueamento”, em que certas cores, religiões ou línguas sejam vistas como pesos a alijar. Não é o país de um multiculturalismo que acentue a tónica do “culturalismo” e construa apartheids de tonalidade supostamente suave, “interculturalidades” de eventos de festa, música e comida com princípio, meio e, sobretudo, fim. Não é o país de uma cidadania universal apenas abstrata e que esconda as desigualdades ao mesmo tempo que reforça o direito de sangue em detrimento do direito de solo. Não é o país que troca a narrativa falsa da glória dos descobrimentos, encobrindo escravatura e colonialismo, pela leitura falseada da nossa história como sendo uma de universalismo humanista, encobrindo de novo a escravatura e o colonialismo.

O meu país ensina às crianças as várias interpretações possíveis da nossa História, promove a cidadania universal mesmo, privilegia o direito de solo, convida à imigração e não incita à emigração por necessidade mas sim por cosmopolitismo, combate os apartheids laborais e habitacionais, garante a democracia e os direitos humanos universais (sim) como contrato social mínimo, deixa cada qual escolher e experimentar as suas identificações sem as incentivar ou cristalizar em identidades, e saúda os múltiplos hibridismos a que a igualdade de oportunidades possa dar azo. O meu país reiventa-se e foge ao que de pior se passa na Europa, recuperando a sua melhor herança, e não distingue as condições de possibilidade da diversidade das condições de possibilidade da igualdade social e económica. O meu país é o que pode, sim, ter algo a que se chama “orgulho nacional”, mas pelo seu projeto, valores e práticas, não pelo seu “sangue”, identidade cristalizada e excludente, ou História mistificada.

É esse o meu país, do qual gostaria que um dia uma filha ou um filho pudesse dizer “o país dos meus pais”.

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