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CRÓNICA 48

A GERINGONÇA

Depois de 4 anos de um governo de coligação da direita que aplicou, com excesso de zelo e perverso prazer neoliberal, a política de austeridade imposta pelo FMI, o BCE e a Comissão Europeia (a “Troika”), o principal partido de direita tornou a ganhar as eleições. No entanto, não conseguiu maioria, nem coligado com o segundo partido da direita. Em vez de seguir o hábito instalado pelo tempo – aceitar a governação em minoria do partido com maior percentagem dos votos – o principal partido da oposição, o Socialista, propôs-se fazer governo, com base em acordos de apoio parlamentar por parte de partidos da esquerda (Comunista, Bloco de Esquerda, e Verdes) que sempre haviam interpretado a política daquele como “de direita”. Inconsolada com este desfecho – constitucional e legal num sistema parlamentar – a direita acreditou que os acordos colapsariam cedo, devido às inimizades históricas entre as esquerdas. E chamou a solução governativa de “geringonça”.

Embalada pelo espírito positivo dos acordos, a esquerda não reagiu mal ao apodo. Pelo contrário, apropriou-se dele com (auto)ironia, roubando a capacidade de significação à direita. O termo é usado com prazer e há mesmo um blog e site noticioso, ligado à nova maioria/acordo, chamado “Geringonça”. Este e muitos outros casos simbolizam a enorme novidade que foi esta solução governativa, no que tem, por um lado, de superação da ideia de “arco da governação” (governos ora da direita, ora do PS, ora do PS com um partido de direita), substituída pela de “arco constitucional” – trazendo para a área da responsabilidade perante a governação partidos à esquerda do PS que nunca nela se tinha concebido poderem estar (e que até se recusavam a estar) e, por outro, reforçando a acusação de a governação austeritária da direita ter cometido inúmeros atropelos à Constituição, tanto no espírito como na letra.

A mudança é histórica. E creio mesmo que, não fosse Portugal um país pequeno e relativamente periférico, o exemplo seria estudado e até emulado noutras paragens. Ela mudará para sempre as perceções e vivências das esquerdas. É certo que se pode dizer que a geringonça nasce de forma reativa ou pela negativa: contra a direita, contra a política de austeridade e as imposições externas da desastrosa política do euro e da desagregação da Europa como espaço democrático e (assim se pensava) solidário. É, em parte, verdade. Mas está a ser mais e  nada impede que seja propositiva e positiva. Para o ser mais ainda há que continuar o que já está sendo feito: uma nova cultura de diálogo e negociação. Que não é baseada em ideias de “consensos”, antes aceita o dissenso como a base da comunicação. Perceber que coabitar não significa amar os outros nem entrar em empatia completa com eles, mas sim reconhecer sistematicamente a alteridade como ponto a partir do qual se constrói a identidade e se pode viver em conjunto. O que significa, obviamente, definir prioridades e definir linhas vermelhas. Tudo isso é bom – contra a hipocrisia e os falsos consensos, mas também contra os cortes e zangas violentas.

Quase que se poderia especular – não fosse o des-gosto que tenho por teorias de psicologia coletiva, culturalistas e essencialistas – que a geringonça é a versão política do “desenrascanço”, como se diz em português de Portugal. Não o será, claro. Até porque resulta mais da inteligência e do cálculo (ainda bem), do que do improviso. Mas revela uma capacidade de invenção que talvez tenha mais a ver com o espaço de manobra possível numa situação política e económica como a portuguesa, que é semi-periférica, entre “norte” e “sul”, “desenvolvimento” e subdesenvolvimento”, uma situação com enorme profundidade histórica. E onde a experiência da longa ditadura e o tipo de revolução que se seguiu ao 25 de abril, criou uma cultura política que impede, felizmente, o surgimento de nacionalismos extremados de direita como em muitas paragens europeias – e estabeleceu há muito uma “normalização”, mesmo entre as classes médias e burguesas, da noção de “esquerda” (em suma, não há “papões” comunistas, e os fascismos são “inimagináveis”).

Há qualquer coisa de cultural, discursiva e politicamente interessante e produtivo nesta coisa da “geringonça”. Se tudo continuar resultando, e tiver efeitos transformadores nos partidos políticos envolvidos e sobretudo na cidadania, daqui a muitos anos os manuais de política e os pensadores de esquerda poderão vir a referir-se ao “Geringoncismo” (Contraptionism!) – e talvez os estudiosos da cultura possam vir a falar do mesmo em relação a formas culturalmente relativas de gerir o social, as suas diferenças e desigualdades. Porque nada disto se assemelha a unidades de esquerda, a frentes populares, ou coisas semelhantes próprias de contextos históricos e globais (Guerra Fria, estrita política de classes, etc.) muito distantes já. Isto é, provavelmente, uma pós-modernidade de esquerda, que quer ultrapassar simultaneamente os desastres da Terceira Via das social-democracias europeias e o irredentismo maximalista das esquerdas mais radicais.

Se o Geringoncismo resultar politicamente, será uma lição. Uma lição para as esquerdas, para a política, para a Europa. E, se resultar como tal, poderá vir a ser também um dispositivo cultural, um modo de fazer  bem-comum e de ver a sua complexidade.

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