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CRÓNICA 50

ORLANDO: 10 POSTS IRADOS + 1 DE ALÍVIO em  24 HORAS

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DUPLA CONSCIÊNCIA (OU: DE COMO A PALAVRA HOMOFOBIA DESAPARECE EM CERTO DISCURSO MEDIÁTICO E POLÍTICO SOBRE ORLANDO E NO ENTANTO EU OIÇO-A AOS GRITOS)

“It is a peculiar sensation, this double-consciousness, this sense of always looking at one’s self through the eyes of others, of measuring one’s soul by the tape of a world that looks on in amused contempt and pity. One ever feels his two-ness,—an American, a Negro; two souls, two thoughts, two unreconciled strivings; two warring ideals in one dark body, whose dogged strength alone keeps it from being torn asunder.” W. E. B. DuBois escreveu isto em “The Souls of Black Folk” em 1903.

“Double consciousness” viria a tornar-se num conceito nas ciências sociais e nas humanidades. Bom para descrever a situação das categorias sociais subalternizadas material e/ou simbolicamente. Aplica-se, entre outras, à categoria LGBT. É uma capacidade paradoxal – não uma superioridade, mas algo que resulta da situação – de se ver desde fora, de se ver como os outros nos veem, desde o centro neutro (mas nunca neutro…) da norma, do lugar de poder/prestígio, da “adequação” identitária. Uma capacidade – que vem da socialização – de viver segundo a norma se se quiser e, assim, descobrir que ela é convenção e performance ou, como se costuma dizer em linguagem com o seu quê de transfóbica, um “travesti”. E colocando-a, assim, em causa. O que pode, obviamente, ter consequências diversas: do armário à auto-culpabilização. da libertação à luta, dependendo de diferentes capitais acumulados, relações criadas, acontecimentos fortuitos, ambiente social e político, etc.

Em suma, eu sei o que pensam sobre “mim” (não estou a falAr de mim mim), porque aprendi a pensar da forma como pensam sobre mim. Só que, depois, tenho uma outra forma de ser e pensar. É isto que me permite – de novo, não é uma superioridade, é algo que, por exemplo, todos os cientistas sociais deviam ter por treino (mas infelizmente nem todos têm…) – perceber o mecanismo que leva à omissão, demissão e silêncio da homofobia como algo identificável. Que me leva, inclusive, a perguntar-me que quererão certas pessoas dizer com “homofobia” se sistematicamente não a identificam ou a negam em tudo o que eu sinto ser homofóbico (e inclusive me acusam de paranóico por isso – ah, a acusação de paranóico, histérica, auto-centrado, vitimizado….)?

Costumava eu pensar: será que para elas homofobia é apenas quando alguém é morto por ser LGBT? Que reservam homofobia para isso, não vendo o ataque sistemático, constante, quotidiano, nas palavras, atos, omissões, alusões, afastamentos, hesitações, receios, acusações, suspeitas, inferições?

Mas, se é assim, então…. e Orlando?

 

[O DO ALÍVIO

Muito bem. Primeiro-ministro de Portugal.

“A homofobia feriu de morte a Liberdade, em #Orlando e no Mundo. Ser livre também é poder escolher quem se ama. A liberdade vencerá o ódio.”
TWITTER.COM|BY ANTÓNIO COSTA]

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Universalizem-nos nos direitos e na igualdade. Não nos universalizem apagando a especificidade da discriminação de que somos alvo.

 

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A mensagem de Marcelo a Obama: uma merda monumental. Nem direitos humanos sabe escrever, usa “direitos do Homem”. Homofobia? Zero menção.

“Mansplaining”: quando um certo tipo de homem “explica” paternalistamente a uma mulher que ela está enganada na sua queixa de sexismo.

“Straightsplaining”: quando um certo tipo de hetero “explica” a alguém LGBT que é histérico/a por ver homofobia no ataque de Orlando

 

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O ângulo Trump a ganhar: enfatizar o anti-terrorismo em abstrato, omitir a homofobia e a exigência de igualdade. A imprensa internacional colaborando. Os governantes – desde logo PT – também? Quando nem é preciso “escolher”: foi ambas as coisas, ataque a todos e todas nós pelo extremismo terrorista E ataque de ódio homofóbico. Não é preciso escolher, é preciso afirmar ambos.
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1 Homofobia é também isto: uma rádio noticiar um ataque do daesh a uma discoteca nos EUA sem especificar que é discoteca gay. Como se a homofobia não fosse um dos programas centrais de todos os fundamentalismos. E, assim, diluindo a especificidade da homofobia em coisas vagas sobre a diversão, o bem-estar e a tolerância do Ocidente. Homofobia assassina e explícita dos fundamentalistas, homofobia subtil do Ocidente….

2 Em trânsito, mas ainda não dei por reações oficiais portuguesas. Espero estar enganado. E que as reações oficiais tenham o bom senso de não fazer a asneira de 1

3 Triplamente chocado: pelo massacre; pela omissão crescente da homofobia; pelas reações de quem não entende este último choque.

 

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Aparentemente há quem leia o que quer e não o que está escrito. Então, o resumo do post anterior: ontem mataram-me por ser gay e dizê-lo. Ponto. Não aberto à interpretação. “Opera chiusa”….
Bom Santo António, sem massacres de católicos em igrejas.

 

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ORLANDO NA ORLA DE “ORLANDO”*

Sei que há quem pense: “Para o Miguel Vale de Almeida é fácil dizer ‘eu sou gay, je suis gay’. Big deal…” Acontece que não é fácil. O jogo identitário, quando não é essencialista nunca é fácil. É posicional, político, dialógico. Não sou só gay. Não me sinto sempre gay. Não sei bem o que é ser gay. E às vezes não o quero ser. Não enveredei nunca pelo discurso Queer porque suspeito politicamente dele, na sua recusa do identitário. Mas tão-pouco vejo a identidade gay como uma etnicidade, por assim dizer. E muito menos como um estilo de vida. É uma forma historicamente temporária de estruturar género e desejo, mas totalmente real enquanto operativo o desejo concreto de pessoas concretas e, sobretudo, enquanto operativa a homofobia. O que eu sei, o que me interessa ao fim do dia no meu corpo, na minha pessoa, no meu desejo, nas minhas relações de todos os tipos, e na polis, é isto: a homofobia existe com a força própria do sexismo ou do racismo e o seu alvo preferido é quem diz “eu sou gay” – e o seu objetivo principal é impedir que alguém o possa dizer ou pensar sequer na possibilidade de o dizer. É por isso que me (es)forço e identifico-me: eu sou gay e mataram-me ontem por isso.

 

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Para os hesitantes: as pessoas não-gay ou não-lésbicas que estavam na Pulse, pois certamente também as haveria, também foram atacadas por homofobia.

 

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Quero ouvir*a palavra homofobia em comunicados do PR e do PM sobre o massacre de Orlando. Respeitar os mortos por quem foram, mortos por terem sido quem eram.

Good night and good luck.

 

1

50 mortos. 53 feridos graves. Numa discoteca LGBT que é ativa nos direitos humanos, público sobretudo hispânico. Terrorismo com uma motivação: homofobia.

[É preciso sangue. Muitos gays serão impedidos de contribuir pela mesma “razão” que outros foram mortos e verteram sangue – homofobia]

This Post Has 1 Comment

  1. Carlos Santos diz:

    Caro Miguel
    Na frase do início do 3º parágrafo “Em suma, eu sei o que pensam sobre “mim”(…)” não deveria estar “Em suma, eu sei o que penso sobre “mim”(…)”?
    Cumprimentos
    Carlos Santos

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