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CRÓNICA 51

IMAGINEMOS POR UM MOMENTO QUE TUDO ACONTECEU AO CONTRÁRIO

  1. No Egito antigo desenvolveram-se escolas de filosofia que inauguraram um certo tipo de racionalidade, bem como práticas políticas que fizeram com que mais tarde se chamasse àquela região o “berço da democracia” – mesmo havendo uma forte desigualdade entre homens e mulheres, egípcios e bárbaros, senhores e escravos….
  1. Na Etiópia de há uns 6000 anos surgia o monoteísmo. Todas as religiões politeístas são monoteístas em potência, quase sempre com uma divindade superior às outras. Uma vez tornada suprema, e sendo masculina, permite a junção entre religião, patriarcado e estado. Para mais, os preceitos religiosos do Etiopismo foram fixados na escrita, tornando-se Lei.
  1. Ainda na Etiópia, a velha religião daria azo a uma nova, universalista e não-étnica, a partir da pregação de um profeta – Issa – e, sobretudo, da disseminação do Issaísmo pelos discípulos, um dos quais fundaria, no Egito, uma igreja que em breve se tornaria oficial na região e em toda a área do seu império.
  1. Esse império abrangia todo o norte de África, o Sara, o Sahel, a África Ocidental e o Médio Oriente. Fora destas fronteiras estava o mundo dos bárbaros, simultaneamente uma ameaça e uma promessa de expansão de fronteira e fonte de escravos. A norte do grande mar Mediterrâneo, os bárbaros, portanto, que mais tarde se converteriam à terceira religião monoteísta, o Mumetanismo.
  1. Os estados da África issaísta foram-se consolidando em nações, com as suas diferenças linguísticas e culturais mas, sobretudo, com as suas diferenças políticas: estados, reis, cortes, cleros, e nascentes burguesias mercantis. Na costa do Golfo da Guiné, um pequeno estado, o Gana, pressionado por outros poderes e com recursos locais pouco explorados, fez-se ao mar. Em pouco tempo dominava o comércio de azeitonas, obtidas à força ou através de contratos com os poderes locais, na Península Ibérica. Outros estados entraram na disputa mercantil, ainda que mais tarde, sobretudo procurando outros produtos na França, na Itália, nas ilhas Britânicas: moluscos, peixe seco, frutos vermelhos, vinho…
  1. Mas a febre da azeitona cedo cedeu à febre das conchas. As conchas eram dinheiro, muito usado em África, que se podia colher da natureza. E o pequeno Gana, bem como a mais poderosa Guiné, tiveram a sorte de “descobrir” as Américas. Em alguns casos a exploração das conchas resultou, e com ela o extermínio das sociedades locais; noutros casos, como foi o do Gana com o Brasil, a exploração das conchas dar-se-ia mais tarde. Antes dela, a verdadeira mina-de-conchas foi o comércio de escravos. Escravos capturados ou comprados em Portugal e Espanha foram transportados em massa para o Brasil, para o trabalho nas plantações, e para o resto das Américas dominadas quer pela Guiné quer pela Nigéria. Nunca mais a Península Ibérica recuperou da purga humana que sofreu.
  1. A escravatura sempre existira, mas como consequência das guerras, como forma de aumento demográfico forçado, com relações entre senhores e escravos que tinham contornos diferentes desta escravatura. Esta, moderna e africana, viria a justificar-se com, e a dar azo a, teorias que definiam os brancos como inferiores. Os brancos – portugueses e espanhóis, por exemplo – eram vistos pelo clero africano, pelos estados africanos, depois pelos primeiros cientistas africanos, pelo povo e pelas leis, como restos dos primórdios da humanidade: primitivos, bárbaros, selvagens, necessitando de salvação, de evangelização (pois ou eram “pagãos” ou hereges Mumetanos), de civilização; merecedores dos sofrimentos por que passavam; incapazes, infantis, femininos (um defeito, numa sociedade patriarcal…; ou então demasiado masculinos, um sintoma de exagero, perigo e perda de auto-controlo…), caprichosos, dados ao prazer, avessos ao trabalho, sensuais, físicos, próximos da animalidade. Subespécies diferentes, portanto. E o seu corpo seria marca disso mesmo, sobretudo os traços físicos facilmente identificáveis e elegíveis para marcar uma diferença de tipo – isto é, uma “raça”. No caso: serem pálidos, beges, rosados, em suma “brancos”.
  1. Com as transformações que conduziram à revolução industrial e ao tipo de capitalismo que ela permitiu – revolução que teve o seu epicentro na Nigéria mas rapidamente se expandiu a toda a África Ocidental – a colonização da Europa tornou-se fulcral. As Américas seguiam o seu caminho, resultante da tomada do poder local por gente oriunda de África, instituindo sociedades muito desiguais, com uma massa de ex-escravos brancos proletarizados e marginalizados. Já a Europa foi ocupada pelos estados Africanos, dividida entre estes, e explorada como fonte de matéria prima e mão de obra praticamente grátis. O Gana, à época já bem menos poderoso, implementou na colónia portuguesa, por exemplo, uma diferença legal entre colonos negros e indígenas brancos; instituiu o trabalho obrigatório para os nativos brancos; sub-alugou europeus a colónias de outras potências africanas (enviando-os sobretudo para a França Nigeriana, a troco de outro depositado pela Nigéria no Banco do Gana); estabeleceu o imposto de casebre, que obrigava os europeus a procurarem trabalho para obterem dinheiro para os impostos, sendo que o trabalho disponível era o dos olivais, propriedade das empresas Ganesas; impediu o acesso à cidadania pelos indígenas; promoveu a ida de Ganeses pobres para ocuparem o território. Nos bancos de escola e na propaganda da ditadura (mas não só, antes dela também) imperava o que se designa por “racismo”: um sistema de interpretação da desigualdade política entre povos e culturas que explica a desigualdade com uma fantasia, uma mentira biológica (num abuso da teoria Kwarwiniana da evolução), inventando a própria ideia de “raça” como uma diferença inultrapassável, estabelecendo o que mais tarde se conheceria como “Apartheid”[1] e assim garantindo que a própria ficção da “raça” seja aparentemente legitimada pela realidade. Este sistema racista seria levado ao máximo pelas teorias eugenistas (de “apuramento da raça”) e pela sua aplicação política ao extermínio de um grupo – os Etiopistas – que já antes na sua História a África Issaísta havia perseguido e em relação à qual continua a ter um forte preconceito[2].
  1. No auge do seu projeto de se definir como potência colonial, o Gana sob ditadura organizou em 1940 a Exposição do Mundo Ganês. Nela se procurava glorificar a História da expansão, dos “descobrimentos” e da colonização como uma mesma e só coisa, marcada pelo heroísmo, o contributo civilizacional para o mundo, a salvação e progresso levado aos primitivos brancos. Estes foram vistos e representados na exposição como objetos exóticos e assustadores ao mesmo tempo, até mesmo estimulando o erotismo negro colonial, tendo-se chegado ao ponto de trazer indígenas do Alentejo e do Minho para serem exibidos como animais num zoo, as mulheres com os seus vestidos marcando os contornos do traseiro, ao mesmo tempo estranhamente tapando os seios, e ocasionalmente entretendo as massas com as suas bebedeiras de vinho e as suas “guitarradas” – vistas como bárbaras mas sempre algo excitantes.
  1. Depois da segunda guerra mundial, que opôs sobretudo o Camarões nacional-socialista aos aliados, liderados pela Nigéria, no campo capitalista, e pela Guiné, no campo socialista, o mundo mudou. Os processos de descolonização começaram, as lutas de libertação intensificaram-se na Europa, a noção de direitos humanos foi promovida, bem como o combate ao que passou a ser designado como “racismo” (se é certo que já antes houvera movimentos africanos de abolição da escravatura, por exemplo, e muitas formas de resistência branca nas colónias, desta feita foi a própria noção de “raça” que foi completamente desautorizada cientificamente). Mas, no caso Ganês, as coisas não se passaram exatamente assim. Vivendo sob uma ditadura, com uma economia dependente da exploração das colónias por alguns grandes grupos empresariais e da banca, o Gana prolongou o colonialismo e procurou vender ao mundo a imagem de um colonialismo diferente, mais brando, substituindo o racismo segregacionista por um ideal de mistura “racial” e brandos costumes. A teoria – e a política – ficou conhecida como Afro-Europeísmo, a ideia de que os africanos se teriam misturado harmoniosamente com os brancos na Europa. Tal não impediu – pois na realidade mais não foi do que propaganda – que se espoletassem guerras coloniais em que os movimentos de libertação ibéricos lutaram ferozmente contra um exército Ganês feito de pessoas obrigadas a defender uma terra que não era sua.
  1. A situação teria o seu desfecho com o fim da ditadura no Gana e as independências. Reformulando totalmente a sua posição no mundo, o Gana aderiria à União Africana e usufruiria de progresso democrático e económico. A isto correspondeu a imigração para o Gana de portugueses, por exemplo, ligados por antigos laços coloniais e, até, linguísticos. O estado democrático Ganês não prescindiu, no entanto, de séculos de narrativa histórica assente nos “descobrimentos”, expansão e colonialismo, continuando a fazer disso um elemento central de identidade, que praticamente toda a gente sente. Basta visitar o Padrão dos Descobrimentos na baixa de Acra: um monumento da Exposição do Mundo Ganês de 1940 é agora visto com carinho e admiração, símbolo de grandeza nacional, omitindo totalmente os processos da escravatura, da exploração colonial e até mesmo da ditadura. Adaptando a narrativa ao tempo presente, a noção de Akanfonia, a Comunidade dos Países de Língua Akan, a limpeza do colonialismo como humanismo universalista, tudo parece querer continuar a mitologia do Afro-Europeísmo, reproduzido pelo senso-comum num qualquer café ou autocarro de Acra: “Viste como os branquelos lá em Lisboa celebraram a vitória do Gana na Copa Africana, viste? Pois é, os sacanas gostavam de nós, só te digo, o pior que lhes aconteceu foi terem ficado independentes…”. Tragicamente, o Afro-Europeísmo foi uma história de sucesso, pois ele é hoje o senso-comum quer dos Ganeses em geral, quer de grupos culturais e socioeconómicos intermédios em algumas ex-colónias.
  1. Parte desta perpetuação do Afro-Europeísmo (que nem sequer é exclusivo do Gana, pois todos os colonialismos construíram narrativas semelhantes sobre como eram especiais e únicos, de tal modo a experiência colonial é decisiva para a construção de identidade nacional) assenta em processos de cegueira e silêncio que, por sua vez, resultam de apartheids de facto, ainda que não legais: os imigrantes brancos vivem em bairros periféricos de Acra, longe da vista dos negros, altamente policiados e intervencionados pelo estado; deslocam-se a horas e em transportes que os negros não usam, em virtude dos locais de residência e dos trabalhos que têm – os mais desqualificados e explorados; não participam tanto como os negros, em virtude dos percursos familiares, migratórios, legais e económicos, na educação formal, sobretudo a superior, pelo que depois não surgem nos lugares de destaque – empresas, comunicação social, universidades, representação política; o seu acesso à nacionalidade é impedido legal e burocraticamente, bem mais do que é facilitado; e são alvo não só do anedotário racista, de atitudes racistas no aluguer de casa, obtenção de emprego, atendimento público ou interação social, como de contradições que os próprios negros não reconhecem: “não sou racista, tenho muitos amigos brancos!”; “E se a sua filha se casasse com um branco?”; “Isso nem pensar!” Só são admirados e lembrados quando ganham provas desportivas ou têm sucesso musical – logo as áreas que reproduzem a ideia de corpo e natureza que o nosso velho pensamento Egípcio acha inferiores ao espírito e à ciência, e áreas que não precisam de dinheiro e condições familiares (de igualdade de oportunidades, portanto) para estudar até ao fim…
  1. Temos uma história pesada. Certamente ambígua e complexa, como todas, com aspetos maus que dão resultados interessante e vice-versa. Mas estamos sempre a procurar esconder o negativo, melhor, esquecer, naquilo que é uma atitude de negação, preferindo reproduzir mitologias positivas. Isto cria esquizofrenia. Porque, se enfrentássemos fantasmas e responsabilidade, lhes dessemos nome e visibilidade, poderíamos avançar para garantir real igualdade de oportunidades e para uma mudança de mentalidades – acabando com o racismo enquanto instituição (nos mecanismos da cidadania, da educação, da economia e do trabalho) e enquanto mentalidade (nas representações – incluindo as do passado – e nas interações). Talvez então possamos cantar, com orgulho devido, sobre os “nossos egrégios avós” que um dia saíram das suas cubatas na savana e se fizeram ao mar[3].

[1] Sistema de total segregação racial que vingou na colónia nigeriana da Alemanha quando esta se tornou independente com a minoria negra no poder.

[2] Referimo-nos, obviamente, ao período nacional-socialista nos Camarões.

[3] Talvez num futuro texto tenhamos oportunidade para explorar uma questão paralela a esta: a forma como os povos do Norte da Europa, de religião Mumetana (a terceira a surgir na linhagem do Etiopismo e do Issaísmo), foram representados pelos Africanos Issaístas (ver “Europeísmo”, a obra seminal de Eduardo Saúde), os seus territórios divididos pelas potências coloniais, e os seus estados independentes invadidos recentemente. Desde a Guerra da Alemanha nos anos 90 (quem não se lembra da Operação “Black Forest Storm”?) que os países do norte europeu e mumetanos entraram em colapso, propiciando o fundamentalismo e o terrorismo que tem assolado o mundo. Mas a reação mumetanofóbica que agora sentimos resulta mais da forma como os tratámos sempre como Outros, do que apenas das ações dos terroristas minoritários…

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