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CRÓNICA 52

POLITICAMENTE CORRETO? SIM, TENTO.

Há muitos, muitos anos – mas não numa galáxia distante, acho – deliciei-me a ler um livrinho intitulado “Contos de Fadas Politicamente Corretos”. Deliciei-me porque eu próprio era – e sou – adepto, por escolha ética, do “politicamente correto”. Deliciei-me porque percebi que o livro tinha sido escrito por quem partilhava essa minha escolha mas gozava com os seus exageros e peculiaridades. Uma forma de auto-humor, portanto. Não tinha sido escrito pelo que hoje são os adversários mais assanhados do PC, pela simples razão de que eles nem existiam, com os atuais contornos, à época. Digamos que me deliciei da mesma maneira que muitos comunistas portugueses se deliciavam contando anedotas sobre os exageros ridículos da imagética e linguagem soviéticas.

“Politicamente correto” significava – e, para mim, continua a significar – o reconhecimento de que a linguagem perpetua as classificações que naturalizam exclusões sociais e discriminações. Ponto. E que alterações conscientes nela podem ajudar ao reconhecimento e à inclusão ao nível simbólico. Segundo ponto. Parágrafo, até. Porque PC não quer dizer, como agora surge por aí, “hipócrita”, “bem educado”, “totalitário de esquerda”, “feminazi”, “normativo”. Já repararam, inclusive, como estes termos se contradizem? Já li a mesma pessoa dizer, em posts diferentes no facebook, que o PC é coisa de imposição totalitária por minorias e que é coisa de obediência à maioria imbecil. Say what?

O que aconteceu, então, desde os tempos dos Contos de Fadas até hoje? O que aconteceu foi duas coisas, uma “lá fora” (uso os EUA como referência), outra “cá dentro”. Primeiro, e começando pelo “lá fora”, a aplicação concreta do PC em certos contextos foi feita com dedicação purista, diferenciando-se da ideia original como o estalinismo ou o maoismo das ideias de Marx. Segundo, foi vítima de backlash, de reação negativa, pois punha em causa formas de ver o mundo que efetivamente garantiam a naturalização de privilégios. Terceiro, e agora “cá dentro”, em Portugal muitas vezes apanha-se o comboio quando ele já vai na terceira ou quarta estação – e o PC foi apanhado quando os efeitos do backlash já se faziam sentir ao mesmo tempo.

Talvez se imponha algumas perguntas à laia de respostas:

Há exagero, purista e roçando o ridículo, por parte de alguns defensores do PC? Sem dúvida. Mas o problema é do PC ou de quem é purista e ridículo? O purismo e o ridículo não estão equitativamente distribuídos na sociedade? Alguém aceitaria que o estalinismo fosse a única definição de socialismo?

Há luta e reivindicação por parte de pessoas e grupos ativistas anti-discriminação pelo uso de linguagem PC? Há. Mas alguém poderia explicar por que razão isso seria estranho, pelo menos mais estranho do que alguém gritar ou protestar quando alguém nos pisa?

Há necessidade de esforço para aplicar linguagem PC? Há. Mas alguém pode explicar qual a regra de vida em sociedade que não implica um esforço, começando pela educação e pedagogia das crianças e, na realidade, nunca terminando ao longo da vida? Ou será que a nossa relutância em pagar certos impostos ou em ir a reuniões de condomínio deve ser agraciada com um encolher de ombros preguiçoso?

Há uma sensação de mudança de paradigma na aplicação do PC? Há. Mas quando mudámos o paradigma do “entre marido e mulher não metas a colher” para o da violência doméstica como crime público não fizemos uma mudança paradigmática maior ainda? Não somos, afinal, seres na História?

Há quem tenha tendências censórias a partir de posturas PC? Há. Mas o problema não será mais essas pessoas concretas terem tendências censórias, do que o PC? Considerando que tendências censórias também as encontramos entre quem deseja proibir a pornografia ou qualquer piada sobre o catolicismo?

Tantos anos depois daqueles Contos de Fadas, e em Portugal, o ataque ao PC tornou-se em algo de banal, disseminado, hegemónico. Assenta numa gigantesca preguiça face ao esforço, numa recusa da mudança, numa vontade de não ser conotado com ativismos, num desprezo pelo conhecimento das origens e verdadeiro significado da coisa mas, sobretudo, em dois dos piores “instintos”: ser popular no grupo, grupo que se define pelo seu caráter hegemónico (“se toda a gente goza com o PC, eu também gozo – e não quero parecer uma dessa feministas ou um desses gays”); e reivindicar a ilusão de autonomia individual contida na frase “eu cá sou uma pessoa muito franca, digo o que penso, não sou nada politicamente correta” – quando o alvo da suposta franqueza é sempre a categoria discriminada, nunca, mas nunca a categoria dominante.

E é assim que, nesta gozação com o PC, no mínimo se ajuda à perpetuação da naturalização das discriminações, no máximo torna-se a vítima em algoz. A sanha anti-PC é, aliás, a prova mesma de que o PC não é uma tontice de uns quantos malucos: se o fosse ninguém lhe ligava nenhuma. Se a linguagem não fosse política – e incorreta, eticamente – ninguém andava tão afoito a manter a linguagem protegida das “brigadas de PC” (ah, que expressão) por um muro. No alto desse muro, lá nas ameias, lutam supostamente pela liberdade de expressão. Esquecem-se que liberdade de expressão (nos dois sentidos da palavra) sempre a tiveram e sempre assentou na recusa de liberdade e de expressão às categorias discriminadas..

Pensando bem, para essa luta e esse esforço já não há preguiça….

 

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