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CRÓNICA 53

De abril a janeiro e sempre

Ontem morreu Mário Soares.

É todo um ciclo da nossa História que simbolicamente se encerra, o da nossa construção democrática, descolonizadora, e europeísta.

E hoje faz 7 anos que o Parlamento aprovou a igualdade no acesso ao casamento civil. Ainda hoje gosto da intervenção que fiz enquanto deputado – como gosto dos progressos que desde então fizemos, completando verdadeiramente a igualdade perante a lei. E sinto orgulho coletivo, orgulho desta comunidade política e cultural a que pertenço.

Mas impõe-se um flashback: no período que foi do 25 de abril de 1974 ao 25 de novembro de 1975 eu tinha entre 14 e 15 anos. Era um adolescente liceal e tinha aderido ao comunismo. Não me arrependo por um momento das escolhas que então fiz, porque elas assentaram numa narrativa e convicção de liberdade e igualdade que estava muito disponível, era muito influente, empolgante e feita de laços com pessoas concretas muito queridas.

Hoje sei que a vertigem daqueles anos, a pura efervescência e velocidade, a inevitabilidade esmagadora de tudo e o contexto histórico não permitiam que o debate político fosse profundo, sereno e até verdadeiramente livre. As dicotomias simplistas triunfavam, à esquerda e à direita, e purismos e utopias pareciam ser as balizas do pensamento e da ação.

Colocava-me, então, como adversário de Mário Soares. Não, “não gostava” dele. A manifestação da Fonte Luminosa, vi-a como “reacionária”, e colocava-me do lado da “revolução”.

Não subscrevo nem a tese nem a acusação de que “com a idade se ganha juízo” ou de que “as pessoas deixam-se aburguesar”. Defendo que a experiência, o estudo, o contacto com outras vidas e outras realidades, e a descoberta de nós próprios, permitem a mudança. Aliás, devem gerá-la. Sei muito bem, e há muito, que a pessoa em que me tornei não sobreviveria, obviamente, nem à ditadura portuguesa nem ao regresso do autoritarismo reacionário que poderia ter acontecido em reação ao 25 de abril. Mas sei hoje também muito bem que a pessoa em que me tornei seria das primeiras vítimas da coisa que defendia então, caso ela triunfasse. Um totalitarismo segundo o modelo soviético da época teria feito de mim um inimigo; e uma alternativa nacional, mais ou menos à cubana, teria feito de mim, no mínimo, um pária.

Devo dizer que não subscrevo teses simplistas que veem o atual partido comunista como a mesma coisa de então. Não o é, e o seu papel e função são hoje muito mais dependentes da, e consonantes com, a democracia do que muitos sectores saudosistas da ditadura, por exemplo. Acho mesmo que, emoções e enquistamentos individuais aqui ou ali à parte, o conflito simbólico em torno do 25 de novembro já não existe realmente, e em parte a Geringonça está aí para o demonstrar (nesse sentido, o pragmatismo político de Costa é bem o herdeiro do de Soares, desta feita direcionado à esquerda e não à direita).

O que eu quero dizer é que, com recuo histórico, defendo que o fim do PREC (o facto em si, fossem quais fossem os autores e atores ou as motivações) foi fulcral para garantir o tipo de regime político em que vivemos. E o tipo de regime político em que vivemos, a preciosamente frágil democracia, ganhou em Portugal – e por causa das experências da ditadura, do 25 de abril, do PREC e do 25 de novembro – contornos específicos que permitem uma recusa do extremismo, uma censura social dos maus instintos que é quase intuitiva, uma sabedoria, em suma, que geraram o contrato social de liberdade e de desejo de igualdade em que vivemos. Mário Soares é símbolo disso mesmo e foi ator maior disso mesmo.

É por isso que não tenho vergonha nenhuma em assumir que, apesar dos meus 15 anos de então, errei à época, e o verdadeiro idealismo é o que sinto hoje. É o que vivo hoje, com condições para criticar as próprias ilusões da democracia ou os que a manipulam; com condições para desenvolver um pensamento crítico e criativo, na universidade, nos movimentos sociais ou na política. É o que vivo hoje, como no dia 8 de janeiro de 2010 e em tantas ocasiões posteriores em que pudemos e podemos aprofundar a democracia.

E é por tudo isso que na terça-feira vou à rua, em frente ao Parlamento, saudar Mário Soares.

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