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CRÓNICA 54

COM QUE SONHAM “ELES”?

Tentar pensar como “eles”. Sem lhes atribuir malevolência. Imaginar-me um “deles”. Com que sonham?

Creio que sonham com um mundo feito de estados com fronteiras bem definidas e vigiadas. Cada estado seria uma unidade perfeita. Dentro dele, um povo relativamente parecido no fenótipo, como uma família alargada. Falando a mesma língua, e só essa. Partilhando valores consubstanciados numa tradição vista como secular, articulados idealmente num código religioso próprio. Não desejam conflito e guerra, a não ser para manter estes princípios. Porque em tese todas as outras pessoas no mundo estariam nos seus estados com populações homogéneas, em situação equivalente, cada um no seu lugar. Por isso as migrações, o refúgio e o asilo não seriam de todo desejáveis. Cada estado teria a sua economia praticamente autossuficiente, complementada por acordos comerciais à peça, sem organizações ou tratados abrangentes. A economia organizar-se-ia com um ideal de ausência de conflito, talvez com formas de concertação social muito próximas do corporativismo. Isto faria com que a própria representação política tivesse como prioridade a representação do sentir coletivo do povo enquanto unidade homogénea: menos ideologia e programas diferentes, mais representação de base profissional ou geográfica. Idealmente, um líder carismático representaria o povo, à maneira de um pai de família respeitado, ou de uma avó viúva, ou dos reis imaginados de antanho. As regras da separação dos poderes, ou dos pesos e contrapoderes tornar-se-iam naturalmente obsoletas e coisas vistas por outros como ditatoriais, não seriam entendidas de todo como tal: proibir a greve para garantir a paz social, por exemplo, ou limitar a liberdade de imprensa para impedir a conflitualidade, seriam consequências lógicas do desejo de uma paz fora da História, esse tumulto incompreensível. O exercício da autoridade férrea do estado, sobretudo pelas polícias e forças armadas seria legitimado pelo desejo de ordem e segurança, incluindo a punição da dissidência demasiado vocal, a contenção de todos os desvios sociais, e o castigo que siga a velha regra do olho por olho. Assim como a nação é uma grande família, o estado o pai, e o povo os filhos, também a família seria vista como a base da sociedade. Uma família obedecendo à percepção do que é a natureza: as mulheres em média mais fracas e caracterizadas pela capacidade de terem filhos; os homens em média mais fortes e caracterizados pelo trabalho, o esforço físico e uma tendência domesticável para a violência. Naturalmente, a família seria estritamente heterossexual, e as diferentes capacidades e direitos de homens e mulheres seriam análogas às que separam estado e povo: o primeiro manda no segundo e representa-o, garantindo uma ordem clara, e sempre considerando a reiterada ordem natural e os códigos culturais secularmente vertidos em cânones religiosos. Homogéneo e contido, vigiado e seguro, obediente e conformista, com o mínimo de conflito, disputa, diferença, mudança, inovação, criatividade ou desafio, o mundo com que sonham (como futuro, mas também como retorno a um passado imaginado) não teria as desigualdades do capitalismo selvagem, nem o descontrolo da globalização, nem as artimanhas da democracia liberal, nem os impostos e aproveitamentos dos preguiçosos que a social-democracia ou o estado social propiciam, nem, claro, os desvarios classistas do comunismo.

Com que sonham “eles”, então, e não os vendo como facínoras fanáticos, com um programa ideológico metodicamente organizado, mas como pessoas banais que encontramos na esquina e dão um bom dia civil, esperam na fila, ajudam alguém que tropece no passeio, beijam os filhos? Sonham com um fascismo sem fascismo. Isto é, com todas as características, utópicas ou concretizáveis, do fascismo, mas sem o peso do que entretanto se tornou a memória dos fascismos concretos, as consequências concretas dos fascismos, o ferrete do fascismo, o nome do fascismo. Algo “nacional” ou “popular”, portanto.

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