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CRÓNICA 55

OS NOSSOS NEGROS

A sociedade americana e os seus criadores têm refletido tanto (e tão bem) sobre o racismo ou a herança da Escravatura, que em países onde tal não é feito – como Portugal – muita gente identifica racismo com EUA. Se se perguntar a um jovem, consumidor sobretudo de audiovisual, sobre o assunto, aposto que a imagem mental que lhe ocorre é o sul dos dos EUA, Luther King e etc. Nada português. Nem sequer colonial. Acantonado nesse espaço de representação, o excelente trabalho que a sociedade e a cultura americanas têm feito acaba tendo o efeito perverso de ajudar à continuação da fantasia não-racista portuguesa.

Nunca tivemos um Baldwin, por exemplo, fazendo as perguntas que ele faz (a partir da ideia de que, e estou a aludir, não a citar, “não sou negro, sou uma pessoa, vocês é que criaram o ‘negro’ e quero saber porquê e para quê”). O facto de nunca termos tido um Baldwin, por muito naturalmente diferente ou específico que fosse, é em si mesmo demonstração de como a fantasia não-racista é um preventivo para a explicitação do racismo.

Não foi possível, até hoje, termos um Baldwin. E não será possível enquanto muita gente, a começar por muitos historiadores e responsáveis pelo ensino e divulgação da História, não escreverem num post-it (e o pespegarem no ecrã do computador) esta frase do grande pensador e ativista negro e gay James Baldwin: “The great force of history comes from the fact that we carry it within us, are unconsciously controlled by it in many ways, and history is literally present in all that we do.” Ou, mais: “People are trapped in History and History is trapped in them”. É uma tragédia que haja tanta gente que não queira libertar-nos, que se sinta mais confortável na neurose de negação que criámos.

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