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CRÓNICA 57

#YouToo?

As campanhas americanas de moralização dos comportamentos – daqueles que revelam desigualdades e opressões – tendem muitas vezes a resvalar para o moralismo e a caça às bruxas em nome da liberdade? Sim. As reações francesas aos movimentos igualitários, na forma como crescem em contextos anglo-saxónicos e daí se disseminam, tendem muitas vezes a resvalar para o reacionarismo e o tradicionalismo em nome da liberdade? Sim.

É este curioso duplo movimento que se deteta nalgumas consequências do #MeToo e em reações como a da carta subscrita por Catherine Deneuve, deste lado do grande charco.

Não queremos – quer dizer, não quero – um #MeToo transformado em lei seca, como quando da proibição do álcool nos EUA, movimento impulsionado por mulheres evangélicas em nome da paz caseira e contra a perdição dos homens; ou numa caça às bruxas, feita pela detecção dos mínimos sinais indicativos, quando se perseguia o que se percecionava como o inimigo principal, o comunista.

Não quero, tão-pouco, a repetição da movimentação anti-casamento igualitário em França, em que participaram pessoas das ciências sociais e humanas, lado a lado com fundamentalistas católicos, usando argumentos essencialistas sobre a suposta ordem simbólica do género, confundindo interpretação dos esquemas simbólicos com prescrição para a organização da sociedade.

Há que fazer duas coisas. A primeira é distinguir fenómenos. A segunda é compreender sistemas.

Distinguir fenómenos significa reconhecer fronteiras entre sedução, assédio e abuso. Compreender sistemas significa reconhecer assimetria de género: não vivemos, ainda, numa simetria entre masculino e feminino, mas num sistema patriarcal organizado para a supremacia masculina.

Em ambos os lados do charco – dos vários charcos, geográficos ou ideológicos – é fundamental afirmar que o assédio (nem falo do abuso) sucede quando uma relação de poder está subjacente (e dela dependente dinheiro, trabalho, reconhecimento, autonomia, etc.), e o mútuo consentimento não ocorre. Nada a ver com sedução. A maioria das e dos apoiantes do #MeToo sabe isso e defende isso – assim como as signatárias da carta francesa.

Uma defesa do meio termo? Pode parecer, mas não é. Porque, “ao fim do dia”, o #MeToo rompe mais com a hegemonia patriarcal estabelecida (e a sua rede de sustentação feita de silêncios impostos e auto-impostos), do que a “Carta Deneuve”; e o perigo de reprodução do status quo que comporta a posição desta é mais perigoso do que os riscos de puritanismo daquele.

O feminismo, nos seus diferentes matizes, é a exigência de igualdade de direitos, reconhecimento e oportunidades entre os géneros – e, na minha perceção, deve ser mesmo um questionamento do género em si como um dispositivo de poder. Não é, obviamente, a inversão da assimetria. Mas não pode olhar para o lado e fingir que o patriarcado já não existe. A “Carta Deneuve”, apesar de algumas preocupações legítimas (ninguém quer o resvalar para uma injusta caça aos bruxos), está demasiado próxima das demasiado fáceis indignações com o politicamente correto: não sabe estabelecer prioridades.

Estratégica e politicamente, acaba fazendo o jogo da violência de género sem se aperceber.

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