Blog

CRÓNICA 58

IMG-6458 2

UM AR FRIO

Cemitério dos Olivais, Lisboa. Enterramos um tio muito querido de todos. Sobre as emoções privadas, a privacidade é a melhor escolha, simultaneamente a mais digna e com mais pudor. Mas há uma zona cinzenta, aquela em que as emoções privadas roçam o público. Mais do que roçam, aliás: confundem-se com ele. E tornam-se, então, políticas.

O nosso tio pertencia ao que deverá ser a última geração de pessoas que viveram a guerra colonial como combatentes – e sejam elas portuguesas, angolanas, moçambicanas ou guineenses. Este tio sobreviveu – um outro suicidar-se-ia. Uma prima traz consigo uma carta que ele lhe escreveu, desde Angola. Era a resposta a uma missiva que ela, criança pequena então, lhe havia escrito.

Num português de fazer inveja a muitos letrados de hoje – e, sendo letrado, não era um intelectual, mas sim um técnico – leio uma passagem que parafraseio, pelo que as aspas nem deveriam estar ali, a não ser para conjurar a força do que foi sentido, pensado, escrito, e comunicado): “Perguntas-me se já matei algum preto. Não. E ainda bem. E não quero. São pessoas como nós, a única coisa que parece diferente é a cor da pele. E não se deve matar ninguém, nunca, a não ser em legítima defesa ou para defender alguém mais fraco.”

Mas, mais do que a resposta humanista, decente, correta, do nosso tio preso na teia dum serviço militar obrigatório, duma guerra colonial, e duma ditadura, viajo, atónito, ali no cemitério, pela cabeça duma criança que – num tempo de guerra colonial, num tempo de ditadura, numa História de colonialismo – pergunta candidamente pelo trofeu da morte dum “preto”.

Que ouvia ela à sua volta? Que absurda, cruel, inumana banalização racista era aquela em que crescia, ela que era certamente uma criança crente nos adultos e na escola, de bem com a vida e as pessoas, como só às crianças parece acontecer, por breves anos que seja? Que lhe estavam a fazer? Que nos estavam a fazer? Que nos fizeram?

Futura cidadã da metrópole, esperando cartas com selos retratando indígenas da colónia.

No cemitério dos Olivais passa um vento frio.

E sobra a dignidade do nosso tio.

This Post Has 0 Comments

Leave A Reply