Blog

CRÓNICA 59

MAI E PÃE

O pai que eu gostaria de ser não se define pelo género, pela sua supostamente intrínseca masculinidade, ou por um jogo de papéis supostamente complementares entre masculino e feminino. Não me interessa nada ser um pai especializado em autoridade com os rapazes e mimo com as raparigas, e patriaca para ambos; um pai que pouco trata das coisas práticas da vida, mas brinca; um pai que é engolido pelo trabalho e repassa para outrem o cuidado, a atenção, o acompanhamento. Nem sequer me interessa ser um pai “moderno”, que já tem mais características tradicionalmente atribuídas ao feminino, mas que ainda assim mantém a ideia de uma qualquer divisão complementar de género, inspirada numa ideologia psi mal-amanhada há dois e por dois séculos atrás. Não me interessa, sobretudo, ter de pensar a partir desse template, e desespera-me quando me vejo sugado – pela força do hábito, da incorporação, da pressão social ou dos automatismos da preguiça crítica – para ele.

O pai que eu gostaria de ser faz e é tudo, e só não faz e não é o que por idiossincrasia individual não conseguir fazer ou ser: faz as compras, trata do carro, compra roupa, cozinha, aspira e martela coisas, limpa mijo e caca, muda fraldas, dá biberão – de leite artificial ou materno -, dá banho, põe a criança para dormir, levanta-se de noite, leva ao médico, à escola, às festas, brinca, ralha, ensina, mima, fala de coisas íntimas, não foge à conversa sobre sexo, fala do período com a filha, ensina-a a ser autónoma e a não admitir a desigualdade de género, não distingue brincadeiras e atividades pelo género convencionado, fala de sentimentos com o rapaz, ensina-lhe a igualdade de género, manda-o fazer atividades domésticas e de cuidado, e a ambos explica que são livres de descobrirem qual a sua orientação sexual e identidade de género, se alguma específica, bem como os talentos, gostos e percursos académicos e profissionais próprios. Estimula o amor, a liberdade e a responsabilidade e só não admite o preconceito, a inconsciência do privilégio e a falta de decência ética. E está-se nas tintas para a genealogia, não projeta a propriedade patriarcal, material ou simbólica, nas filhas e nos filhos.

O pai que eu gostaria de ser não é pai, é mai e é pãe, é parent (e que desgraça não termos essa palavra na língua portuguesa). Porque o pai que eu gostaria de ser seria um pai que não precisaria de dizer “o pai que eu gostaria de ser” – nem alguém que se vê obrigado a dar aqui exemplos sobre rapazes e raparigas – mas simplesmente um ser humano que cuida de crias humanas.

This Post Has 0 Comments

Leave A Reply